CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
"…Ó Pião da minha infância…
                     ...vem de novo à minha mão..."

Uma estória real de outros tempos de Assentis.

Duvido que algum "jovem" do meu tempo não se lembre de uma bonita canção, surgida no princípio da década de sessenta cantada - muito bem, assinale-se - por António Calvário e que dava pelo nome de " Ó minha terra". Essa canção , quando eu, então recém chegado a Lourenço Marques, a lá ouvia no Rádio Clube de Moçambique, a emoção era tal que os meus olhos tantas vezes humedeciam. E, não raro, deixavam soltar pequenas lágrimas de saudade da terra distante onde nasci e cresci: a minha longínqua e querida Assentis, para onde essa linda melodia, inevitavelmente, então "transportava" a minha alma.

Diz-se que "recordar é viver". Concordo plenamente. Neste caso, já lá vão tantos, tantos anos...e, ainda assim, sempre que a ouço, continuo a recordá-la e a "vivê-la" com muita emoção, parecendo-me que 'foi ontem' que tudo isto aconteceu!...Mas não foi!... Agora, por estranho que possa parecer, essa música faz dois nostálgicos trajectos: o de Assentis e o da ex-Pérola do Índico...Não é a isto que nós Portugueses chamamos SAUDADE?!...Essa palavra muito nossa?!...Talvez mesmo intraduzível?!...

Como já repararam, o título desta 'croniqueta' foi "plagiado" da canção atrás mencionada. E porquê essa escolha? Por um lado, porque alude ao 'pião da minha infância'. Ao brinquedo-mor da minha meninice.Da garotada do meu tempo . A um 'tesouro' de outras eras. infelizmente ultrapassado e em desuso actualmente. Mas que nem por isso deixa de estar adequado, por ter sido contemporâneo dos factos narrados no presente apontamento. E por outro, porque cabeçalho de "diabruras com carneiros" ou algo semelhante não me parece poder ser título de jeito. Daí a opção por " Pião da minha infância", já que, para além das nossas descritas travessuras praticadas nas margens deste malagueiro, também ali jogávamos frequentemente ao pião. E ainda ao berlinde, à estaca, e ao futebol com bola de trapos.

Na minha última crónica "Os Quatro Malagueiros" referi que logo que pudesse iria tentar escrever algo sobre certas "diabruras" levadas a cabo pela cachopada do meu tempo, nas proximidades do Malagueiro Grande. Ora, " quem promete, deve"... diz o nosso Povo. Assim sendo, eu devo. Pelo facto de haver prometido. E, se "quem deve, tem de pagar"..., aqui estou eu " a pagar a promessa", tentando dar a conhecer, como melhor sei e posso, mais um pouco do passado da nossa terra. Descrevendo aventuras verdadeiras de outros tempos - ainda que nada exemplares, refira-se - , procurando sempre não me tornar enfadonho, mas se o fôr "forgive me please, my friends".

Dizia-se - não é verdade? - que "aquilo que esquece ao diabo lembra aos cachopos". Como também se ouvia, com frequência: "isto não lembra ao diabo". Mas, alto aí, lembrava ao grupo da "canalha" de Assentis do qual eu fazia parte: cometer "judiarias" que, se a Belzebu não ocorreria nelas pensar, muito menos aos nossos pais cabia sequer imaginar que os seus " exemplares rebentos" as pudessem cometer. Ontem, como hoje, permanece esta indesmentível realidade: aos olhos dos papás, os seus meninos são, geralmente, os melhores meninos do mundo!...Nem que neles se vislumbrem potenciais futuros "Al Capones"!...

Uma dessas diabruras, praticada vezes sem conta, nas margens do Malagueiro, e que originou este apontamento, era , nada mais nada menos que isto:

"Valentões de palmo e meio", de peito aberto e hirto, com ar ameaçador, tentando imitar aquilo que aos toureiros víamos então fazer na Praça de Touros de Tomar, desafiávamos, em vez de garraios ou de bois bravos, um enorme carneiro (reprodutor) do rebanho de ovelhas, pertença do Sr. José Costa (Zé Mota), rebanho esse que diariamente por ali pastava. Como, noutras "croniquetas" anteriormente, já referi , a "garotada" desse tempo era forçada a dar voltas à sua imaginação no sentido de descobrir formas de se divertir. Ora, uma das nossas "descobertas" dessa época foi decidir, escolher e enfrentar aquele animal de grande porte como "artista/actor" das nossas perigosas brincadeiras. Seleccionada a "presa", passou-se rapidamente da intenção à acção: que consistia em testar , continuamente, as nossas habilidades de "toureiros de carneiros", passe a pseudo-expressão. E assim, nada melhor que o "uso e abuso"do tal "carneiro-gigante" do rebanho propriedade do Sr. Zé Mota. Mas, claro que é preciso realçar que só "actuávamos" quando o pastor momentâneamente se ausentava. Caso contrário, imaginem as "carícias" com que o homem do cajado nos iria brindar fazendo uso do seu longo e pesado bordão!... Vê-se por aqui - não vê?!... - que éramos uns "santinhos"..., "coitadinhos"!... uns anjos!... com um "exemplar" comportamento!... Ai...ai...ai...se os nossos pais então soubessem destas e de outras perigosas aventuras nossas!...De certeza que as varas de marmeleiro, muito em uso na época, teriam então sido muito mais utilizadas!... E – vamos lá – só se teriam perdido aquelas que tivessem caído no chão!... Nesse tempo, ao contrário do que hoje acontece, quando tocava a castigar...a coisa era mesmo a sério...a doer mesmo...os nossos pais não brincavam...

Prosseguindo:

Esse reprodutor, sendo o único macho do rebanho, estava incumbido de continuar a espécie . Tinha como função principal, reproduzir. Ou melhor, era seu dever "reproduzir-se". Multiplicar-se. Para isso, tinha de "dar assistência amorosa" a cerca de cento e cinquenta fémeas - felizardo!.. - das quais o seu dono naturalmente esperava , daí a escassos meses, vir a ser presenteado com a consequente parição de crias e a subsquente produção de leite para fabricação do apreciado queijo de ovelha. Sem contarmos ainda com o significativo valor da lã tosquiada anualmente. Este reprodutor era um animal de um "cabedal" fora do comum. Um verdadeiro "carneiro gigante", como a "nossa malta" acertadamente o apelidava. Um animal enorme, de facto. Um bicho que, pelo seu tamanho nos inspirava temor. Direi mesmo medo. Que não tolerava - pudera!... - de forma nenhuma, a presença próxima e incomodativa da "cachopada" a perturbar o normal sossego do seu "harém", pois assim que se apercebia que nos aproximávamos demasiado, corria desalmado e furioso em nossa direcção, facto que satisfazia plenamente os nossos intentos. Uma vez que era exactamente essa reacção do animal que ali nos levava e nos divertia: diversão essa que consistia, nada mais nada menos, que vê-lo enfurecido a investir contra nós, tentando naturalmente "massajar-nos" com uma valente "carícia", melhor: com uma valente marrada. Que, sejamos honestos, bem a merecíamos, não vos parece?!... Ora, como toda a gente sabe, ao contrário dos touros, é característico dos carneiros não investirem contra o seu opositor/inimigo se este estiver deitado no chão. Nobreza isto? Vou pela afirmativa. Mas, sim ou não, o facto é que: os carneiros não marram em ninguém que esteja tombado no solo!...E esta, hein?!... É claro que a nossa "malta" sabia disso, muito bem. Não fora por nós bem conhecida essa peculiar faceta do animal, a ver se algum dos nossos "cúmplices/valentões" ousaria aventurar-se!...E, claro também é que, daí tirávamos partido: pois, cientes que estávamos do facto de uma vez "pregados ao solo" jamais seríamos molestados, abusávamos, claro!... Fazíamos uso de um pouco do nosso "pouco caco" (vamos lá) contra a força bruta e natural da besta dita irracional. E assim, quando o animal, em corrida louca, furiosa e desenfreada na nossa direcção, estivesse apenas a uns três/quatro metros de nos atingir e de nos "afagar" com uma valente marrada, lançávamo-nos, repentinamente, ao chão, como se fosse num mergulho. Ao que - acto contínuo e imediato - o carneiro parava bruscamente, estacando com firmeza as patas dianteiras na terra, efectuando portanto uma "travagem rápida". Quedando-se, momentâneamente, a olhar, visivelmente enfurecido, para o atrevido "mini-toureiro/carneireiro" prostrado no chão... Que, cobardemente, permanecia quietinho que nem uma mosca morta, não fosse o diabo do bicho mudar de ideias ...e... zás...toma lá... Dessa posição "beijando o solo" o "herói-cobarde" só saía quando tinha a absoluta certeza de que a alimária se havia afastado para distância considerada segura. Pois não!?...Não se diz que "quem tem c...tem medo"?... A provar que actuávamos com "conhecimento de causa" e com as necessárias precauções, está o facto de, para além do lamentável stress que causávamos ao pobre bicho, nunca ter havido acidente algum. Na verdade, se alguma vez, algum de nós, houvesse sido colhido com uma marrada daquele possante animal, nas vezes sem conta que o atormentámos, é mais que provável que não sobrevivesse ao toque de tal "carícia amigável"!... Livra!...De certeza que tería ido dali logo para os anjinhos!...

Como anos volvidos nos arrependemos destas e de outras maldades!

Disseram-nos mais tarde – e ainda hoje se proclama (para se tentar justificar o injustificável?) - que tudo isto faz parte do crescimento humano. Eu diria que diabruras iguais ou semelhantes a esta, podem e devem ser evitadas. Proibidas mesmo.Pois elas resultam da ignorância, estupidez e malvadez deste erecto "bicho de duas patas" a que chamam de ser humano. Sendo portanto, perfeitamente evitáveis. Já que delas resulta intolerável sofrimento para os indefesos animais que connosco cohabitam o planeta azul e que nada mais esperam de nós que não seja que os não tratemos mal. Que não sejamos mais irracionais que eles são. E nós, naquele tempo, portávamo-nos, por vezes, como autênticos diabretes. Felizmente que tudo muda...E muito mau seria se a nossa "seita" não tivesse mudado também.

Não foi Leonardo da Vinci que um dia disse: "Tempo virá em que o facto comprovado de se haver maltratado um animal será considerado crime igual ao acto de maltratar-se um ser humano"? QUE ESSE DIA CHEGUE RAPIDAMENTE. E QUE SE COMECE A PUNIR, SEVERAMENTE , QUEM MALTRATA OS ANIMAIS. O grau civilizacional de uma sociedade também se mede pela forma como essa socieade trata os animais.

 

 

Abílio Conde Vieira
13 de Outubro de 2011
 
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