CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
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OS QUATRO MALAGUEIROS

Mas o que é, afinal, um Malagueiro?

Qualquer pessoa que viva ou tenha vivido em Assentis, ou em alguma das aldeias vizinhas, conhece, com toda a certeza, a palavra MALAGUEIRO. Um termo que antes julgávamos exclusivo desta zona do Ribatejo, mas que pelos vistos não o é. Como adiante iremos ver... Um vocábulo que se usa para designar qualquer pequena lagoa ou reservatório de água a céu aberto, um desses "buracos" resultantes da extracção e remoção de grandes quantidades de barro para utilizar na laboração de duas cerâmicas locais (hoje ambas, infelizmente, extintas) para fabricação de telha e tijolo. Dessa enorme remoção de terras, quais "mini-minas" a céu aberto, resultou o aparecimento de "crateras" que as águas pluviais a seguir foram enchendo, a ponto de transbordarem durante praticamente todos os invernos. É bom lembrarmo-nos de que os efeitos ou rigores dos invernos actuais, nesta zona do País, pouco têm a ver com os de há algumas décadas atrás, quando aqui chovia quase regularmente de Outubro a Março/Abril.

Comecemos pelo vocábulo MALAGUEIRO: Nenhum dos dicionários de Língua Portuguesa que consultámos possui esta palavra. O único meio de informação que nos permitiu encontrá-la foi o DICIONÁRIO PORTUGUÊS 'ON LINE' ("léxico") que assim reza: " malagueiro: 1 - s.m., o mesmo que fanqueiro; 2 - nome de um vegetal mencionado por Brotero." Por aqui se pode verificar que não existe refererência alguma sobre a palavra malagueiro com sentido idêntico àquele que lhe é dado em Assentis. Porém, há poucos dias, falando, casualmente, com um erudito amigo de longa data, acabámos por abordar o vocábulo em questão. Pois não é que esse nosso bom amigo, sem que algo lhe pedíssemos, não se ficou por ali?!... Foi pesquisar a preceito a referida palavra e obteve a informação que acabou de nos enviar. E que a seguir transcrevemos: "MALAGUEIRO: Gíria naval portuguesa para designar o mar ou o mau tempo no mar". "E esta, hein"!?, como diria o Fernando Pessa. Aprender até morrer... é uma grande verdade!

Pondo de lado o assunto do termo "malagueiro", falemos então sobre aquilo que, em décadas passadas eram, tal como os conhecemos, os quatro reservatórios de água da nossa terra. De dois dos quais ainda hoje subsistem restos.

Sendo a falta de água – como num outro apontamento já mencionámos – um dos 'calcanhares de Aquiles' de Assentis, é muito natural e perfeitamente compreensível que a sua população nutrisse especial carinho por tudo quanto ao "precioso líquido" diz respeito. Ora, a água que os malagueiros armazenavam era como que uma dádiva divina. Um bem precioso que a nossa gente não queria de forma alguma desperdiçar. Nem nunca desperdiçou, saliente-se: dando-a a beber aos seus animais domésticos e utilizando-a para as regas. Facto que nós próprios testemunhámos no decurso da infância e adolescência, e que, graças a Deus, ainda muito bem recordamos. É pois por bem nos lembrarmos que iremos a seguir procurar descrever o que então eram aquelas quatro reservas de água. Tentando, tanto quanto possível, isolarmo-nos da saudade e afeição muito especial que nos liga a uma dessas quatro "piscinas naturais", por haver sido nela que demos (tal como muitos garotos de então) as primeiras braçadas na aprendizagem da natação. Auto-aprendizagem, podemos dizer porque mestre ou professor jamais existiu! Aprendíamos sozinhos... e era se queríamos!

Vamos então aos malagueiros.

Comecemos pelo maior. Aquele que toda a gente conhece e dá simplesmente pelo topónimo de 'o malagueiro', embora nos lembremos de algumas pessoas então o referenciarem como "o malagueiro grande". Talvez por ser "grande" (o maior), nunca tenha precisado de qualquer apelido (geográfico ou outro) para ser identificado. Ao contrário dos restantes três que tiveram de ver adicionada "alcunha" ou sobrenome, para assim poderem ser mais facilmente distinguidos.

Este malagueiro – o grande – situa-se na zona da Serrada. Mais concretamente numa baixa perto do Ribeiro do Paiol, pequeno e sazonal curso de água que, juntando-seao malagueiro, forma como que uma espécie de mini-estuário criado pela água que dali corre em direcção à Ribeira de Bezelga e desta para o Rio Nabão, afluente do Rio Zêzere que, por sua vez corre até Constância, onde desagua no grande Tejo. A actual extensão deste "lago/malagueiro" deve andar por menos de metade da superfície que o formava em finais dos anos 40/ 50. A vasta área aquática dessa época, principalmente em anos de abundantes chuvas, formava uma enorme lagoa, em termos relativos, para a nossa aldeia.

Ora, "onde há água há vida". Toda a gente sabe. E vida era o que não faltava por ali. Abundante. E diversificada. Nesse "malagueiro grande". Exemplo disso mesmo, e o que mais nos fascinava, eram as inúmeras galinholas que por lá encontravam o seu "habitat". Impressionava-nos a rapidez com que aquelas aves aquáticas se escondiam, ora mergulhando e aparecendo longe do local onde iniciavam o mergulho ora camuflando-se debaixo dos inexpugnáveis silvados ou entre os arbustos existentes nas pequenas ilhotas do lago e nas suas margens, desaparecendo da vista enquanto entendessem que a intrusa presença humana as perturbava. Só voltavam, timidamente, a mostrar-se, quando se apercebiam de que já estávamos longe. Se bem pensarmos: porque será que este erecto "bicho de duas patas", chamado homem, causa tanto terror aos outros seres vivos? Não será que algo de muito errado ou de muito mau, tal bicho tenha vindo a infligir, ao longo de milénios, aos outros animais que com ele co-habitam neste planeta azul? Faz-nos pensar, não faz?!

Patos selvagens, esporadicamente, também por ali esvoaçavam. Mas, desconhecemos porquê, não permaneciam por muito tempo.

Quanto a peixe, nunca o vimos por lá. O motivo para tão estranha falta talvez residisse no facto de, em anos de maiores secas, a água, no Verão, desaparecer quase por completo, ficando reduzida a pequenos e esparsos charcos, até à chegada das chuvas seguintes do Outuno/Inverno. Também admitimos que outra razão para a falta de peixe nesse 'lago' assente no facto de as águas possuírem, na altura, alguma poluição oriunda do Tanque da Fonte, onde as mulheres da nossa aldeia lavavam a roupa e o mais que fosse preciso, na água corrente que dali saltitava ribeiro abaixo até ao malagueiro.

Creio não nos enganarmos se dissermos que os principais 'povoadores' desse malagueiro, para além das aves atrás referidas, de diferentes e multicolores pássaros, e de algumas cobras de água, lagartixas, sapos, etc., eram as rãs. Ali viviam milhares destes batráquios. De múltiplas espécies. Facilmente identificáveis pela coloração e tamanho. Esses simpáticos bichinhos, quais músicos integrados numa gigantesca orquestra dirigida por um credenciado maestro, brindavam, ininterruptamente, noite após noite, durante toda a Primavera e Verão, a nossa aldeia com a "melodia" do seu cadenciado coaxar nocturno! Um som que, de tão intenso, se fazia ouvir a longa distância, muito para além da nossa terra. Curioso que, tanto quanto recordamos, jamais ouvimos quem quer que fosse manifestar qualquer desagrado pela "música" daquela orquestra natural. Facto que nos leva a pensar: se fosse agora, não apareceria por aí alguma "Comissão de Qualquer Coisa" a tentar convencer-nos de que tal barulho seria poluição sonora, prejudicial à saúde pública? Tão fartos estamos de exageros exercidos sob a capa de 'a bem da comunidade' – muitos desses exageros só para justificar "tachos", acrescente-se – que já nada nos surpreenderia se tal acontecesse!

Deixando em paz os simpáticos batráquios, lembramos ainda as saborosíssimas amoras silvestres que tantas vezes colhíamos nas margens do lago. Que deliciosas elas eram. E - em certas alturas - em quantidades que davam para dar e vender.

Recordamos, por fim, a passarada deste malagueiro: melros madrugadores, rouxinóis de surpreendentes trinados, arvéolas (esses simpáticos passarinhos que ajudaram São José e Nossa Senhora a fugir para o Egipto com o Menino apagando-lhes as pegadas, para que os soldados de Herodes os não encontrassem, como reza a lenda). Os irrequietos piscos, os furtivos ferreiros e rabetas, os diferentes tipos de flochas ou chiadeiras, algumas de plumagem castanho-olivácea que migram para África, além de outras espécies que, durante o dia, substituindo as rãs, nos encantavam com ininterruptas melodias. Claro que, quando crianças, nunca apreciávamos estas e outras bênçãos da natureza. Todavia, tais episódios ficam para sempre gravados na memória de quem os vive, proporcionando, mais tarde, este dedilhar melancólico a que chamamos saudade.

De salientar ainda o facto de as cercanias deste malagueiro e sobretudo as suas margens servirem, ao longo de quase todo o ano, de local privilegiado para apascentar rebanhos de ovelhas. Pudera... a constante fartura de mantos de erva sempre verde e a abundância de água no local eram factores que qualquer pastor digno da sua profissão jamais poderia desperdiçar. A este propósito, se tempo e saúde nos permitirem, tentaremos, num futuro próximo, rabiscar breve apontamento sobre certas diabruras da "canalha" do nosso tempo, algumas delas "executadas" nessas redondezas.

O malagueiro grande nunca foi utilizado para a prática de natação. Pensamos que, para tal, três factores foram determinantes: o primeiro, por ser considerado perigoso, pois o seu fundo era muito irregular, variando de profundidade ao longo de toda a extensão aquática. Profundidade essa que, nalguns pontos, era mesmo assustadora. Atente-se que, a cada três ou quatro metros de distância, deixava de haver "pé"! Era "muito fundo"..., como então dizíamos!.. Aprendizes que éramos, quem de nós queria aventurar-se, sabendo que poderia afogar-se? O segundo factor: a água nem sempre se apresentava isenta de alguma poluição resultante das lavagens a montante, como atrás mencionámos. O terceiro motivo: à volta deste malagueiro não existia arvoredo ou esconderijo algum. Era – e é ainda – campo aberto ao seu redor. E mais: num dos seus lados, na encosta, havia habitações relativamente próximas, todas elas com vista aberta para o lago, facto que nos impedia de nadar sem sermos vistos, coisa que não era nada do nosso agrado, pois os fatos de banho eram virtuais: "à pai Adão"! Sempre!

Os outros malagueiros

O segundo malagueiro faz parte daquilo a que se pode chamar de espécie extinta. Já não existe. Foi totalmente aterrado. Situava-se a escassos metros do centro da via - Estrada do Forno - exactamente no lado oposto e em frente à actual entrada para o Campo de Futebol da Pinheira, ex-libris da nossa aldeia. Este pequeno 'lago' tinha uma forma oval irregular. O seu tamanho rondaria, no máximo, quarenta metros de comprimento por vinte de largura. Foi este lago, durante décadas, a principal "piscina" da juventude de Assentis. Ano após ano, de Abril a Setembro, a malta nova do burgo poderia lá resistir à tentação de se banhar, vezes sem conta, naquelas convidativas águas? Convidativas sim, repetimos. Mas apenas antes de nelas mergulharmos... porque, passados alguns instantes, tornavam-se amarelas, opacas, barrentas... de tantos saltos e mergulhos... Por vezes, quando a sessão se estendia por horas seguidas, imaginem como dali saíam todos: literalmente "ensaboados" em barro! Talvez a argila fosse benéfica para a saúde, quem sabe?!.. Quantos – ou todos?!... – de nós, frequentadores dessa piscina natural, nela aprendemos a nadar?! Se não tivéssemos sido dos assíduos "clientes" desse malagueiro, julgo que nunca teríamos aprendido a lançarmo-nos à água sem medo, a mergulhar e a nadar.

Mencionámos atrás, propositadamente, "malta nova" da terra: ora, por essa "malta nova" entenda-se que dela faziam parte, única e exclusivamente, rapazes. Note-se que, ao tempo, seria um escândalo as raparigas pensarem em acompanhar os rapazes em tais aventuras. Como os tempos mudaram! Não vos parece, moços?!... Mas, neste caso particular, (está-se mesmo a ver...): " como éramos todos, financeiramente, muito abonados e, por consequência, dispúnhamos de 'cacau' suficiente para comprar qualquer fato de banho que nos desse na gana", optávamos sempre – quem duvida? – pelo melhor, pelo mais natural, pelo mais económico e eficaz: aquele que estava – e estará sempre - prontinho a ser usado e que dá pelo nome já referido de "à Pai Adão" !

Assim sendo, esse tipo de vestimenta não admitia sequer que lhe fosse lançada uma olhadela, por mais furtiva, por parte de qualquer elemento do chamado sexo fraco! "For boys only" era a regra! Praticava-se a "discriminação de sexos", que ninguém ousava sequer pôr em causa. A qual, pura e simplesmente, proibia o género feminino de se atrever a catrapiscar a malta ou a usar aquela "piscina" para se banhar. E, repare-se, ninguém contestava tão injusta "lei"! Era assim, ponto final!

Acontecia que, situando-se a "piscina" à beirinha da estrada, a livre circulação na via pública não era – nem poderia sê-lo – interdita a mulheres! Desta forma, como é que poderíamos conciliar a natação de penduricalhos ao léu e não sermos vistos por qualquer mulher ou rapariga que, eventualmente, por ali passasse? Para grandes males grandes remédios: então, mandava o pudor que se escolhesse sempre um dos elementos do grupo (que se revezava) para ficar de sentinela!... Cuja tarefa era muito simples: bastava-lhe vigiar, durante a "sessão de banhos", a estrada em ambos os lados. Mal avistasse alguém do belo sexo caminhando no sentido do malagueiro, avisar-nos com estridente assobiadela, som esse que, acto contínuo, punha toda a "malta" a fugir da piscina. A esconder-se, até que "a eventual mirone" passasse. A seguir, como não podia deixar de ser, claro que regressávamos à água.

Quando hoje, em pleno século XXI, decorridas que foram mais de cinco décadas, nos lembramos da qualidade das águas onde nos banhávamos – malagueiros e Pego da Azulada – e a tentamos comparar com a das modernas piscinas, meu Deus!...Que abismo! Que diferença! Não há, de facto, semelhança alguma! Contudo, a verdade é que, tanto quanto se sabe, nunca alguém terá contraído qualquer doença resultante do uso e abuso daquelas águas barrentas!...

Quanto à vida animal neste malagueiro, para além de alguns pássaros em número insignificante e de uma ou outra cobra de água, as rãs eram também ali rainhas e senhoras . Às centenas. De referir ainda que, exceptuando o lado virado para a estrada, havia arvoredo, silvados e alguns arbustos a toda a volta da "piscina". Essa vegetação natural, impedindo olhares indiscretos, também possibilitava aos "nadadores" esconderem-se, sempre que a necessidade obrigava, como atrás referimos.

Do terceiro malagueiro pouco mais há a dizer para além de que (embora, actualmente, reduzido a pouco mais do que uma pequena poça de água), ainda "vivia" há uns meses atrás!... Foi quando o amigo JAC nos surpreendeu, levando-nos ao local para podermos enxergá-lo com os próprios olhos... Cercado agora de frondoso arvoredo, de silvas e de muitos arbustos, ainda conserva água. E, curioso para nós: água que nos pareceu limpa. Contudo, se não nos dissessem que aquilo era o resto do que foi o descampado e velho "malagueiro barrento" da nossa infância, não acreditaríamos, uma vez que nada ali faz lembar a época a que vimos aludindo.Chamávamos-lhe então "barrento". Por certo, devido à excessiva quantidade de lodo e barro muito mole nas suas margens,o que nos dificultava chegar à água sem nos atolarmos até quase aos joelhos. Para além de algumas furtivas rãs ou sapos, nunca demos conta de ali haver muita bicharada, para além de cativantes andorinhas, que na Primavera, carregavam barropara construirem os seus ninhos. Em área, este "lago" seria ao tempo um pouco inferior ao seu "vizinho" de alguns metros acima, atrás descrito como a nossa " piscina".

Há ainda um facto relacionado com este malagueiro barrento que não queremos deixar de mencionar: numa pequena fazenda que tínhamos, no sítio conhecido por Pontinha, a nossa mãe costumava plantar: couves, beterrabas, cebolas e feijões. Ora, quando havia necessidade de regar os legumes dessa pequena horta, o local mais próximo para obter água era o malagueiro. Que, note-se, talvez distasse da fazenda mais de cem metros... Lá fomos buscar (a nossa mãe, o meu irmão e eu) muitos baldes e cântaros cheios do precioso líquido para regar aquela "mini-horta". Cremos que se fosse agora, levantar-se-iam certas vozes, clamando contra o trabalho infantil! Era dura a vida! Porém, como se dizia que "o trabalho de menino é pouco...e quem o perde é louco...", havia que "trabucar para manducar"...E nós não fugíamos à regra! Todavia,sobrava tempo para tudo: para a escola, para ajudar os pais e ainda para brincar à tripa-forra...

Por último, o quarto malagueiro. Em tamanho, o mais pequeno do grupo. Que, tal como o da "piscina", também já passou à história, pois também foi totalmente aterrado. Consistia num profundo buraco, qual poço muito largo cheio de água no tempo das chuvas, mas que secava quase sempre no Estio. Apenas o referimos porque também era referenciado na nossa terra como "malagueiro" e que alguns ainda apelidavam de "o malagueiro do Zé Sousa", ou "o malagueiro do Ricócó". Situava-se exactamente no local que agora serve de parque de estacionamento do Moto Clube, na Estrada do Forno, onde esta descreve uma curva, em frente da bonita moradia do nosso amigo JAC. Que me lembre, nada mais de especial há a mencionar acerca desta perdulária "poça grande de água ", uma vez que o preciosolíquido quase sempre dela se sumia pouco depois da época das chuvas. Era, por isso, um "malagueiro miniatura" durante grande parte do ano e, por conseguinte, pouco relevante para a aldeia.

 

 

Abílio Conde Vieira
28 de Janeiro de 2011
 
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