CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
UMA FESTA E UM PADRE – 15 DE AGOSTO DE 1959

Há certos acontecimentos na vida das pessoas que, por serem demasiado marcantes, devem servir de exemplo ou de reflexão para toda a gente. E, por isso mesmo, nunca deveriam ser esquecidos. Pelo contrário, seria óptimo que fossem permanentemente lembrados. O mesmo se aplica a determinados eventos que, por vezes, ocorrem nas povoações, os quais, pelo impacto que na altura causam e pelas repercuções futuras que deles resultam, ficam a fazer parte da História da respectiva localidade onde ocorrem.

Os factos que aqui iremos tentar descrever, passaram-se há exactamente meio século na nossa amada “LA SANCTIS”/ASSENTIS. Concretamente em 15, 16 e 17 de Agosto de 1959. O dia 15 de Agosto, como toda a gente sabe, no calendário da Igreja Católica, de há muito que tem vindo, anualmente, a ser assinalado como o dia dedicado a Nossa Senhora da Assunção. Ao tempo era – e creio que ainda hoje é – “dia santo”. E, por consequência, também feriado nacional. Um dia – para mais calhando a um sábado, como aconteceu em 1959 -, do “mês das festas de verão”, mais que propício à realização de um arraial popular, como era desejo das gentes da nossa terra. Porém, a incompreensível, obstinada e vigorosa teimosia de um sacerdote, impediu que se tornasse realidade nesse pretendido sábado dia 15.

Por esse motivo, Assentis viveu, na data inesquecível de 15 de Agosto de 1959, precisamente há cinquenta anos , um marco na sua História. Um acontecimento que então gerou uma “onda de choque popular” que, em nosso entender, não deveria ficar no rol dos esquecimentos. Um evento que, fazendo parte importante da história da nossa terra, aqui pretendemos recordar aos mais velhos e transmitir aos mais novos.

Entretanto, e para que não subsista dúvida alguma , desejamos deixar aqui bem claro que este nosso apontamento não visa, de forma nenhuma, atingir, maliciosa ou injustamente, o já falecido Sr.Padre Agostinho Cláudio Nunes. Já que não é nosso propósito denegrir quem quer que seja, mesmo que supostamente pudessem haver razões para tanto. Pretendemos, isso sim, e tão somente, descrever factos indesmentíveis. Com todo o rigor de que dispomos. Escrevendo ùnicamente a verdade. E nada mais. Expondo factos que, em grande parte, nós próprios testemunhámos, e que também nos foram agora inteiramente confirmados pelo nosso conterrâneo e grande amigo Manuel Tomás. O festeiro (“mordomo”) dessa histórica festa. Quem carregou sobre os seus ombros a responsabilidade da organização festiva.

A tudo isto, acresce o facto de a pessoa visada - o Sr. Padre Agostinho - já ter falecido, como atrás referimos e, por consequência, não se poder defender , se eventualmente, viesse a sentir que, injustamente, o estávamos aqui a difamar, ou a sermos menos verdadeiros. O que, repetimos, não é o caso, nem nunca foi esse o nosso propósito.

Mas, a verdade é que o Sr. Padre Agostinho errou. E errou como qualquer ser humano erra. Erro amargo esse que lhe custou muito caro e que ele começou a pagar de imediato quando se viu desprezado pelas gentes de Assentis. Imaginemos a sua amargura... E também quando escassos meses eram decorridos, foi forçado a abandonar a Paróquia (onde era muito estimado e se sentia como “peixe na água”) e a ter de rumar para terras do Bombarral, para por lá ficar até ao fim dos seus dias.

Sabe-se que, mais tarde, ele terá ali confessado a alguém da nossa freguesia que o foi visitar, que “ havia agido erradamente no caso da festa de Assentis” e que “lamentava todas as consequências advindas dessa sua falta”.

Na verdade, um erro seu, infeliz. Do qual jamais deixou de se arrepender. Só que o seu arrependimento era insuficiente, por tardio, pois o mal estava feito e era então impossível repará-lo. Posto este “intróito”, vamos aos factos:

 

Ano de 1959
 

Estávamos no final da década de 50. Como se sabe - e a tal já aludimos em anterior apontamento - davam-se então, por todo o nosso país, os primeiros passos para a emigração massiva que trouxe, como consequência, a desertificação do seu interior. Melhor, o despovoamento dos campos e das aldeias, que veio a tornar-se fulgurante nas décadas seguintes, com particular ênfase nos anos sessenta, tendo a guerra do Ultramar, iniciada em Março de 1961, também dado um significativo contributo.

Não esqueçamos que Portugal, continuava ainda a ser um país essencialmente rural. Nas aldeias era por demais evidente que, a par da ditadura, a Igreja Católica também “ governava”. Ou pelo menos, tinha sempre uma forte e última palavra a dizer, nos meios campestres. Era a chamada autoridade religiosa ou eclesiástica. A quem o regime ditatorial - o Estado Novo - concedia poderes que se situavam muito para além de tudo o que com a Igreja se relacionasse, permitindo aos padres “ ditar ordens”, que as populações, especialmente as rurais, eram forçadas a acatar. Caso o não fizessem, eram apontadas como “rebeldes”, daí podendo resultar , para elas, severas penalizações impostas pelo regime político detentor do poder. Era a prepotente ditadura. Com o seu “mando, posso e quero”.

Toda a gente sabia que, salvo muito raras excepções, a Igreja Católica, em Portugal, a começar pelo seu chefe, o Cardeal Cerejeira, de quem Salazar era amigo íntimo, e a acabar nos mais modestos párocos das mais recônditas e ignoradas paróquias de todo o país, andava de mãos dadas com o Governo liderado pelo homem nascido em Santa Comba Dão. Por isso, nada de surpreendente, o facto de alguns padres haverem praticado excessos, cometendo certos abusos, extra-religião, como foi o caso que aqui relatamos, protagonizado pelo Sr Padre Agostinho.

Recorde-se que a esmagadora maioria da população portuguesa, como sabemos, trabalhava na agricultura e dela vivia. Sim, “vivia”. Só que, uma grande parte dela “vivia Deus sabe como...”. Diga-se a verdade. Uma dolorosa verdade também por nós sentida na época.

Mas, o certo é que, mesmo pobre e por vezes passando mal, o nosso povo, sempre foi dado a festejos. Pobre, mas alegre!...Sempre quis arraiais. Poderiam as pessoas sentir-se muito cansadas e não raro mal alimentadas, mas festa, para toda a gente, era forçoso que houvesse. Ano em que, por qualquer motivo, a população não pudesse ter este tipo de folia, não era considerado um ano normal para ela. Novos, velhos e crianças, à festa é que ninguém queria faltar. Mesmo coxos, aleijados, e, muitas vezes, até doentes !...

A festa de aldeia, dessa época, era algo de muito importante para toda a população. Muito mais que nos tempos actuais. Um tanto difícil de explicar aos jovens de hoje. Era talvez o seu maior convívio social colectivo. Que “obrigava” a que os nossos conterrâneos vivendo fora de Assentis viessem à terra para marcar presença no arraial da sua aldeia e aqui se divertissem e confraternizassem com todos os seus amigos. Era ainda um um tipo de convívência social que também trazia à nossa povoação, muita gente não só das terras vizinhas mas de outras mais distantes .Igualmente com o firme propósito de poderem confraternizar e divertir-se. Tenhamos em conta a escassez de diversões da época. A televisão, a preto e branco, ensaiava então as primeiras passadas. Salvo erro em toda a freguesia, em 1959, havia apenas 5 “black and white ” televisores!...

Assim, indo ao encontro dos objectivos acima citados - diversão e confraternização - , o dinâmico Manuel Tomás – honra lhe seja feita – tomou a iniciativa de em 1958 organizar uma “mini-festa” que “baptizou” de PIQUENIQUE , como fez constar nos panfletos e cartazes alusivos.

O êxito, desse “mini-arraial”, foi de tal forma encorajador que este nosso resoluto conterrâneo, se viu como que impelido para, no ano seguinte – 1959 -, “deitar mãos à obra e fazer uma festa em condições”. Festa essa que ele, auxiliado não só por vários outros jovens festeiros , mas também por algumas pessoas “ já maduras”, ponderadamente, programou com muita antecedência. Desse grupo de festeiros, faziam parte entre outros, Carlos Tomás, António Lopes e Joaquim Violante Conde.

Havia porém aqui um grande obstáculo. Muito difícil de transpor. É que o Pároco da nossa freguesia – o Sr. Padre Agostinho – não permitia que se realizassem bailes públicos. Neste caso, nas festas. E mais: no ano anterior, aquando da referida “Festa/ PIQUENIQUE”, Assentis havia “desobedecido” às suas ordens !... Tinha cometido o “crime” de incluir um baile nesse“mini-arraial” . E que, por sinal fora um grande baile!... Mas, céus !... Ao Prior da Freguesia não havia sido solicitado o seu prévio consentimento!...

Esta “desobediência”, embora, tanto quanto se saiba, ele nunca a houvesse mencionado em público, ter-lhe-á “ficado atravessada”. Ter-se-á sentido ofendido, ou pelo menos desautorizado, pelo facto de as suas ordens não haverem sido cumpridas. Sendo assim, é muito provável que tenha ficado com a “pedra no sapato”. À espera de uma próxima oportunidade, para poder mostrar e fazer valer a força da sua autoridade, impondo assim o seu intento.

Aproximava-se então a data para a realização da almejada festa – marcada para 15, 16 e 17 de Agosto -. Os panfletos e os cartazes tinham sido distribuídos escassas semanas antes. Do seu programa constava, como não podia deixar de ser, também a inclusão de um baile, abrilhantado pelo conjunto Pérola Azul, da Barquinha e ainda pelos acordeonistas Manuel Pereira “Pêra” e Arlindo Santareno.

Tudo isto sem haver sido solicitada prévia autorização ao Sr. Prior, contrariando assim aquilo que ele certamente estaria à espera.

E ninguém lhe foi pedir permissão porquê?

Porque na nossa terra (sem que alguém sequer imaginasse que tal pudesse ser considerado desrespeito pelo seu pároco), entendia-se que o Sr. Padre Agostinho nada tinha a ver com o assunto da festa, o qual dependia, única e exclusivamente, dos festeiros e do povo de Assentis. E mais nada.

Somos levados a crer que, uma tal “audácia”, semelhante à do ano anterior, por parte dos “rebeldes de Assentis” , nunca e de modo nenhum, iria então o Sr Padre Agostinho permitir que fosse repetida. Pois que, se Sua Reverência impedia, como toda a gente sabia, a realização de bailes, como poderiam atrever-se os festeiros de Assentis a desafiar de novo a sua autoridade? Portanto, era ponto assente, pelo lado do Sr . Prior, que:

 
Baile, nem pensar !...
 

Contudo, Assentis não arredava pé:

Queria fazer a sua festa. E festa com baile!...

Sendo assim, em que ficávamos ?

De um lado, um Sr. Padre obstinado em impedir uma festa. E, do outro, uma população inteira a exigi-la!...

O ambiente era de grande tensão. Nenhum dos “flancos” admitia ceder. Aumentava a expectativa.

Então, o Sr. Padre Agostinho, para reforçar - julgamos nós - a sua afincada intenção de, a todo o custo, impedir que a Festa de Assentis fosse por diante, deitou mão a um novo argumento:

Passou a questão do baile para segundo plano alegando que nunca iria autorizar que se fizesse uma festa pagã no mesmo dia em que ele iria celebrar, na Igreja Paroquial, em Casais de Igreja, a Festa da Comunhão Solene da Freguesia.

Perante este “novo dado”, o grupo de festeiros, acompanhados pelo respeitável veterano Sr. António Seguro, foi propôr ao Sr. Prior que, face à sua nova exigência, só daria início à Festa de Assentis, depois de ele lhe haver transmitido que tinham terminado, na Igreja Paroquial, todas as cerimónias religiosas desse dia 15. Ou seja, foi garantir-lhe que só depois de acabadas as celebrações solenes na Igreja Paroquial, se daria início aos festejos em Assentis.

Mas - pasme-se - !... Nem assim demoveram a obstinação do Sr. Padre Agostinho!.. Cuja resposta foi:

É mais fácil eu furar a Serra d’Aire” com a cabeça, que a festa fazer-se”!...

Face a uma tal resposta o grupo, como se depreende, regressou à terra “totalmente desiludido”.

A realidade passou a ser esta:

O Sr Padre mantinha a decisão de não autorizar, de forma alguma, que a nossa festa se efectuasse no dia 15. Insistia ele para que a fizèssemos a 16, não se incomodando já com o baile.

Então, a população de Assentis, quando soube que o Sr. Prior continuava inamovível e obstinado contra a vontade popular, fez-lhe saber que:

“Quer ele autorizasse quer não, a festa iria ter lugar a 15, 16 e 17 ! “

Ora isto - como sói dizer-se – foi deitar pólvora no lume !...

Agravaram-se, ainda mais, as posições !...

O Sr Padre exigia. A população, em uníssono, recusava obdedecer-lhe.

Toda a gente, na nossa terra, falava agora abertamente contra a incompreensível atitude do Sr. Padre Agostinho. Verificava-se, claramente, que as pessoas tinham acabado por perder o respeito que, inegavelmente, o seu Pároco até então hes merecera.

Com as posições, nessa altura, completamente definidas e sem ninguém disposto a ceder, o que é que o Sr. Prior resolveu fazer?

Foi a Santarém queixar-se !

Cremos que no dia 14, véspera da esperada abertura da festa, viajou para Santarém, dirigindo-se à então autoridade civil máxima do distrito - o Governador Civil do Distrito de Santarém - a quem apresentou queixa contra a população de Assentis. Acusando-a de ter organizado uma “sublevação popular contra ele, encabeçada por conhecidos elementos locais da OPOSIÇÃO” .

Quando a população de Assentis tomou conhecimento desta “última cartada” do Sr. Padre Agostinho, a aldeia inteira ficou ao rubro. Pasmada e revoltada !...

Repare-se que, nessa noite de 14 para 15, o incansável Manuel Tomás, preocupado com a incertreza do desfecho desta contenda, não se deitou.

Agora sim, era generalizado um incontível sentimento de” rebelião” contra o Sr. Padre. Porém as instruções, inteligentemente dadas de imediato pelo audacioso Manuel Tomás, eram no sentido de que “toda a gente se portasse com a máxima calma e nada de provocar distúrbios”. Pretendia-se evitar dar qualquer trunfo ao opositor, ou às autoridades, que pudesse fazer-nos perder a razão que nos assistia.

E foi assim que, na madrugada do dia 15 de Agosto de 1959, pouco passava da meia noite, a aldeia de Assentis acordou surpreendentemente cercada por forças da G.N.R e tropas de três quartéis: O “G.A.C.A .2 “de Torres Novas ; o “15 de Infantaria” de Tomar e o “Cavalaria 7” de Leiria. Cujas entradas para a nossa povoação foram todas fechadas e controladas pela G.N.R, impedindo qualquer forasteiro de entrar na nossa terra. Ao mesmo tempo, o governo do Estado Novo, colocou um contingente, ainda que não muito numeroso, igualmente da Guarda Nacional Republicana, dentro de Assentis.Cremos que mais para intimidar a população que para a guardar...

Perante tal cenário, claro que, nesse sábado dia 15, como se pode calcular, “a festa foi outra” !...

IMPEDIRAM-NOS DE FAZER A FESTA, MAS NÄO RECORREMOS À VIOLÊNCIA, COMO ELES ESPERAVAM. BARALHÁMO-LOS !...

Pois que,

Contra as forças policiais e militares que nos cercaram e invadiram, reagimos de uma forma que poderemos classificar de exemplar; de uma maneira que os baralhou a todos: aos políticos, às forças armadas (G.N.R. e militares) e até ao sacerdote.

Vejamos: se as “forças da ordem” tinham recebido instruções para virem debelar um “levantamento popular contra um padre” e afinal tinham ali na sua frente todo um povo amigável, acolhedor, ordeiro e pacífico, que raio de coisa era esta? Pensariam eles todos ! Tinham pois, de facto, razão para estar perplexos !...

E porquê? Porque toda a população, cumprindo as instruções recebidas do perspicaz “mordomo”Manuel Tomás , se empenhava, incansável e ininterruptamente, em oferecer café e bolos a todos os elementos da G.N.R. estacionados dentro da nossa aldeia, com os quais dialogava e convivia pacífica e ordeiramente. Com toda a naturalidade.

Sinais de violência? Nem um !...

Ora, sendo a situação de facto absolutamente ordeira e pacífica, em toda a nossa terra, os militares decidiram, por isso mesmo, “levantar araiais”, desse modo confirmando que a sua missão ali, não tinha a mínima justificação.

Assim, por volta do meio dia desse inesquecível sábado dia 15 de Agosto de 1959, todos os elementos pertencentes aos três referidos quartéis, regressaram às suas unidades. Respectivamente, a Torres Novas, a Tomar e a Leiria. Dentro de Assentis, ficou apenas “uma meia dúzia” de guardas da GNR ., tendo a maioria do seu contigente também regressado, nessa tarde, ao ponto de partida.

Escusado será mencionar que nesta altura, a população, embora indignada, não se continha, sorrindo de contentamento pelo facto de tudo haver corriido pacíficamente e, pela certeza e garantia de, no dia seguinte, poder, finalmente, realizar a festa que tanto ansiava. E mais ainda, por sentir que tinha derrotado a incompreensível obstinação do Sr. Prior.

Foi o delírio do povo, a contrastar com o desalento e o lamentável descrédito do seu Padre.

 
Finalmente a Festa !...
 

Ao amanhecer de Domingo dia 16, uma enorme alvorada prenunciava o êxito seguro dos festejos. Como de facto veio a suceder. Talvez nunca a aldeia de Assentis tenha albergado uma tão grande multidão. Gente vinda, Deus sabe de onde. Em “camionetas da carreira” alugadas e pagas propositadamente pelas pessoas que fizeram questão de vir à nossa festa.

A alegria contagiante era bem patente nos rostos de toda a população. Que finalmente tinha a sua festa. Com música ininterrupta até quase ao amanhecer ; a exibição de cantores amadores, de palhaços, de artistas cómicos; a azáfama na quermesse que era constantemente recheada com mais e mais prendas, que nem chegavam para as encomendas; as barracas de rifas; os vários e diferentes tipos de jogos; a venda de bolos e a “BARmácia” sempre muito concorrida e animada. Por fim, a mola real da animação: o Conjunto Pérola Azul e os dois acordeonistas cujas actuações foram do agrado geral, abrilhantando o indispensável e sempre animadol Baile que, por tão concorrido, extravasou para fora do estrado. É, de facto indescritível, o ambiente real de festa rija havida nesses dois dias 16 e 17 de Agosto de 1959.

Passaram, exactamente cinquenta anos !... Cinco décadas!... Meio século !...

Mas na nossa lembrança, perduram ainda todos os acontecimentos por nós intensamente vividos nessa memorável festa. Quem, modestamente, escreve estas linhas, tinha então um joelho bastante ferido, resultante de uma queda de bicicleta, que lhe causava dores intensas , mas jovem resoluto como era nesse tempo, nem isso o impediu de se divertir e dançar, quase ininterruptamente, nos dois dias dessa magnífica e inesquecível Festa de Assentis de Agosto de1959.

 
Depois da Festa
 

Terminados os festejos e “assente a poeira”, a “vida” da aldeia regressou à normalidade, como se impunha. Porém, com uma importante diferença: a partir deste incidente, toda a população da nossa terra, exceptuando duas ou três pessoas, “boicotou”, passe o termo, pràticamente, todas as celebrações religiosas - e não só - efectuadas pelo Sr. Padre Agostinho.

Um exemplo: missa que ele celebrasse, onde quer que fosse, e em qualquer dia da semana, deixou de ter a presença de fiéis de Assentis.

Cremos que este terá sido o factor primordial e decisivo que terá levado a Diocese a transferir o Prelado, de Assentis para o Bombarral, quando se deu conta de que a nossa aldeia o havia deixado de aceitar, passando a ignorá-lo, pura e simplesmente.

Registou-se ainda um lamentável incidente que, felizmente acabou por ter um fim pacífico, mas que poderia muito bem ter findado mal e dele haver resultado algo de muito grave. Ainda bem que tal não aconteceu e isso é que conta. Foi isto: poucos dias eram ainda passados sobre o final da festa, quando duas ou três pessoas, da nossa aldeia, das mais exaltadas e inconformadas com o procedimento do Sr. Padre Agostinho, pretenderam como se presume, tirar despique com o Prelado. Para tanto, fizeram-lhe uma espera, quando este, no seu carro, se dirigia para Fungalvaz, obstruindo-lhe o caminho com alguns ramos de árvores. Prontamente, aquele sacerdote parou, saíu do seu automóvel e lhes exibiu uma arma de fogo. Facto que terá tido o imediato efeito de desencorajar qualquer possível acto imponderado por parte daqueles que - julgamos nós - provavelmente ali estariam para “tirar desforra”. Saliente-se que esta irreflectidal atitude - tomada embora por apenas duas ou três pessoas - nunca teve a aprovação da esmagadora maioria da população da nossa terra. Tal como também a não teve, a surpreendente ostentação de uma pistola por parte do Sr Prior. Mas, atenção: não terá o Pároco de Assentis, com esse seu inesperado gesto de força, evitado que ali pudesse ter acontecido algo de muito mais desagradável? A resposta talvez seja afirmativa.

 
Foguetes na despedida.
 
Na madrugada do dia em que o Sr. Padre Agostinho Cláudio Nunes deixou a paróquia de Assentis, com destino ao Bombarral, fomos todos, surpreendentemente, acordados por uma espécie de alvorada. Alguém, na nossa aldeia, lançou para o ar vários foguetes, que estrondosamente rebentaram, como se de uma festa se tratasse, nunca se sabendo quem foi o “arrojado” fogueteiro. Este acto, embora desnecessário, é por demais revelador de como aquele Sr. Prior era, na altura, considerado “persona non grata”, em Assentis.
 
E pronto...
 

Que Deus lhe tenha perdoado.

O tempo passou. E o tempo que tudo leva, tudo levou. E tudo mudou.

E o decorrer do tempo, também levou a que a generosa população de Assentis, há muito lhe houvesse perdoado. Quem não erra?!...

ASSENTIS PERDOOU-LHE, SR. PADRE AGOSTINHO.

PAZ À SUA ALMA.

VIVA ASSENTIS

 
P.S. – É nosso dever realçar a colaboração valiosa que nos foi prestada por várias pessoas: Dentre elas, os nossos amigos Manuel Tomás, Henrique Conde e José António Costa. Sem a ajuda de todos, ter-nos-ia sido impossível “alinhavar” este apontamento com todo o rigor exigido. O nosso sincero MUITO OBRIGADO a todos.
 

Abílio Conde Vieira
15 de Agosto de 2009
 
Voltar à Lista de Crónicas