CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas

OS QUATRO LAGARES

     Talvez não nos enganemos muito se pensarmos que a primeira reacção de alguns jovens, ao depararem com mais um apontamento nosso sobre o passado de Assentis, seja este comentário: “Mas que ‘séca’ !... “Lá vem o raio do ‘ velhote-chato’ com mais uma história dos “tempos da carochinha”.

     Pois bem, meus jovens amigos, nós entendemo-vos. Perfeitamente!.. Não julguem que não.  É que - verdade de La Palice !... - também já fomos jovem, como vós o sois agora. Já tivemos a vossa idade. A vossa natural irreverência. A vossa ansiedade. Os vossos sonhos.  As vossas  ambições. A vossa alegria de viver. E a  vossa felicidade.

     Coisas  próprias do belo e incomparável – mas efémero - período da mocidade.

     E, porque bem vos compreendemos, aceitamos, sinceramente, essa vossa natural  reacção  aos  apontamentos que nos propusemos escrever sobre um período do  passado da nossa - e vossa - querida terra.

     Apontamentos esses que – acreditem - são dedicados, essencialmente, a  vós mesmos!... Sim !... À juventude!... De Assentis !...

     Por duas razões: - a primeira, é para vos dar a conhecer uma época de vida da nossa aldeia que, se ninguém vo-la contar, vocês continuarão, como é lógico, a desconhecê-la, e consequentemente, ela acabará por desaparecer da memória das pessoas, sob a voragem do tempo; - a segunda, é porque o futuro sois vós: jovens de hoje, homens e mulheres de amanhã. Como tal, é  dever ”sagrado”  dos mais velhos, passar-vos o testemunho. Entregando-o ao futuro. Deixando-o nas vossas mãos.É esta a nossa verdadeira intenção.

     Já agora, pedimos que nos desculpem por,  de um modo geral, falarmos, quase exclusivamente, de factos ocorridos nas décadas de  40 a 60 do Século XX. Mas o motivo, para tal, é simples:  É que foi nessa época que nascêmos,  vivêmos e crescêmos na nossa “ La Sanctis”. Nela viemos ao mundo, em 1941. Nela fomos criados e vivemos até Fevereiro de 1960, quando aos dezoito  anos de idade, voluntàriamente,  nos “autodesterrámos” para o continente africano.

     Repetindo, é portanto  sobre esse curto espaço de tempo – que bem conhecêmos – que honestamente podemos falar. E falar, pois, com muito amor e muito carinho sobre a nossa amada terra natal, tentando assim contribuir para que o tempo não apague para sempre um período que faz parte da história de Assentis. É isso o que nos traz aqui.

     Posto este pequeno “intróito”, vamos aos “nossos” quatro lagares de azeite, os quais laboraram, simultaneamente, durante cerca de quatro décadas do século passado, ou seja nos anos 30, 40, 50 e 60. Eram eles: O “Lagar do Légêro”, o “Lagar do Zé Mota”, o “Lagar do Zé Bento” e o “Lagar do Tónho Mota”.

     É evidente que o tema – ‘lagares de azeite e azeitona’ – justificaria, por si só, sem dúvida alguma, escrever  um interessante livro, se para tal tivéssemos o devido talento. Não apenas abordar, superficialmente, um assunto tão vasto numa simples e limitada “croniqueta” como esta, sabendo-se que o passado histórico da nossa terra muito tem a ver com todo o trabalho inerente à produção de azeite.

     Todavia, impõe-se  que, dentro do possível, se registe, para a posteridade, tudo quanto pudermos.  Nesse sentido, aproveitamos para deixar um  repto a todos  os nossos conterrâneos  para que  alguém  se decida a vir preencher esta lacuna.

     Como sabem, na nossa terra e em toda a região à sua volta, a cultura da oliveira , como também a da figueira, era uma actividade das mais importantes. Produziam-se aqui, anualmente, muitos milhares de litros de azeite,( ao tempo medido em almudes), que os comerciantes do ramo, oriundos dos mais variados pontos do país, vinham comprar a Assentis.

     Muitas eram as tarefas que era necessário executar até se obter o precioso “óleo de oliva”. Uma delas, a apanha da azeitona - que tinha de ser feita num curto espaço de tempo e sob todas as intempéries para evitar que ela se deteriorasse e assim degradasse a qualidade do produto final, o azeite -  envolvia em si mesma uma constante atmosfera de festa.

     De dia trabalhava-se  e cantava-se, ao mesmo tempo, a fortes pulmões. E à noite dançava-se !... Sempre !...

     Essa apanha, naquele tempo, exigia muita mão de obra, que era impossível satisfazer na região. Recorria-se, por isso, à contratação sazonal  de pessoal, que para a nossa terra vinha em grupos a que chamávamos Ranchos. Essa gente trabalhadora era oriunda dos concelhos de Ourém, Pombal, Figueiró dos Vinhos, Leiria e outros.

     A chegada desses ranchos trazia um colorido muito alegre e específico à nossa aldeia, já que deles faziam parte, na grande maioria, grupos de raparigas e rapazes que eram acompanhados e dirigidos normalmente por alguns adultos, em regra os seus pais,  que se encarregavam de velar por todo o rancho, para que tudo corresse sem sobressaltos e dentro do respeitinho que a todos, sem excepção,  era exigido.

     Sabido é que, onde chega a juventude tem que haver animação... alegria... festa!... Esses ranchos confirmavam este inegável facto. E então era verem-se bailaricos, todos os dias ao serão. Ao som do instrumento musical que se pudesse improvisar desde o realejo ao acordeão.

     Regressavam “à base”, ou seja aos locais aonde os seus patrões os acomodavam, essas raparigas e esses rapazes, cansados depois de um dia inteiro de intenso trabalho que começava de madrugada e acabava a tardias horas da noite. Por vezes “molhados até ao miolo” - chovia muito mais que hoje - mas baile tinha, forçosamente, que ter lugar logo após a ceia !... Não fosse  sempre assim – em todos os tempos e em todos os lugares - a juventude !...

     Escusado será referir que a rapaziada da nossa terra, sempre que a oportunidade surgia,  aproveitava para se integrar alegremente nos bailes dos Ranchos,  juntando-se-lhes. 

     Quantos namoricos se iniciaram com estes amistosos contactos, culminando em casamentos?!...

     Não precisamos de ir muito longe para vos dar um exemplo:

     Os progenitores de quem  escreve estas modestas linhas, conheceram-se exactamente através da forma atrás descrita !... Na primeira e única vez que a minha saudosa mãe veio, de Peras Ruivas, integrada num “rancho  da azeitona” (como ela dizia) para Assentis e o meu pai logo lhe “prendeu o coração” !... E, ainda bem que tal aconteceu. Se não, não estaríamos aqui a falar sobre a nossa terra !...

     Mas, vamos então aos lagares:

Comecemos pelo “LAGAR DO LÉGÊRO” (  Lagedo ).

     Originalmente “baptizado” por “Lagar do Chico Tomás” seu primeiro proprietário, este lagar veio a ser comprado pelo Sr. António Costa (“Tónho Mota”, com o devido respeito), pai do nosso amigo Policarpo Costa.

     Esta unidade fabril, se assim se pode designar, situava-se precisamente no local onde hoje temos o prestigiado Restaurante ‘O Lagareiro’( passe a publicidade) cuja designação advém do lagar que antes lá existia.

     Tal como todos os outros lagares de azeite de Assentis, também este era designado por “lagar hidráulico”.  Significava isto que a força motriz que movia as galgas para esmagar a azeitona e impulsionava  as prensas hidráulicas para espremer a massa de onde era extraído o azeite,  provinha de um potente motor a gasóleo.

     Recorde-se que energia eléctrica nas aldeias era “luxo” com o qual nem se sonhava na época, como já mencionámos num outro apontamento.

     Antes da instalação do sistema hidráulico, o aperto dessa massa era feito manualmente implicando grande esforço físico por parte dos lagareiros.

     Para se obter o desejado azeite, vejamos, muito resumidamente, as fases por que passava a azeitona e respectivas tarefas indispensáveis: Primeiro que tudo, colhia-se a azeitona e levava-se para os lagares onde se despejava nas tulhas aguardando a vez para ser moída dentro da vasa, sob o peso das galgas de granito.

     A massa, depois de convenientemente  esmagada, era tirada da vasa e espalhada dentro de ceras de esparto. Estas, uma vez cheias, iam sendo empilhadas umas sobre as outras de forma a facilitarem o aperto na prensa para que o líquido saísse como se pretendia.

     Essa mistura muito viscosa (albufeira, borras e azeite) expelida do interior das ceras era directamente encaminhada para dentro de talhas fixas, também chamadas fontes ou tarefas, aí ficando em repouso, de doze a vinte e quatro horas, para permitir que o azeite (como a verdade!...) viesse ao cimo, separando-se dos outros componentes inúteis (resíduos) os quais eram lançados fora depois de retirado o mágico azeite: o melhor e mais saudável  de todos os óleos comestíveis, segundo os entendidos.

     Poluição? Quem conhecia ou se incomodava com esse “bicharoco”?

     É certo que, durante algum tempo,  em determinada área no exterior de cada um desses lagares, se experimentava um “cheirinho” um tanto desagradável proveniente das descargas de albufeira, mas a intensidade e a frequência das chuvas desse tempo depressa limpavam essas pequenas bolsas poluentes. Tudo voltando ràpidamente à normalidade.

     Para terminar sobre este lagar, julgamos ter sido muito feliz a ideia de se “adornar” o Restaurante ‘O Lagareiro’ com peças que fizeram parte da unidade fabril que lhe deu o nome. Exemplo concreto, o da vasa com as duas galgas, bem visível a quem por ali passa.

     E, já agora, aproveitamos:

     QUE TAL A IDEIA DE SE CRIAR UM ”MUSEU DO LAGAR DE AZEITE”   

     EM  ASSENTIS ?

                                                  Puro sonho irrealizável, ou algo possível? 

     Fica a ideia.

“LAGAR DO ZÉ MOTA”

     Era seu proprietário o Sr. José Costa (Sénior) mais conhecido por Zé Mota, pai do nosso amigo Zé Costa, que o havia herdado do seu sogro, o Sr. António Vicente Pereira.  Já nos referimos a esta “fábrica de azeite”, em apontamento sobre as quatro fontes da nossa terra, há uns tempos atrás.

     Deste lagar que se situava ao lado da Fonte do Tanque, restam hoje apenas alguns  pedaços das suas paredes.

     Criança ainda, lembramo-nos,  perfeitamente, de quando passou de “lagar puxado a bois” a  “lagar hidráulico” .

     No primeiro caso, as galgas eram accionadas pelo uso da força animal: por bois, quase sempre; que circulavam pachorrentemente como se puxassem a uma nora. Por sua vez, as prensas eram apertadas com força humana, uma árdua tarefa para os lagareiros, note-se bem.

     No segundo caso -  “lagar hidráulico” - , estas operações giravam sob a força motriz provinda de um potente motor a gasóleo que accionava o sistema hidráulico.

     Dentro de todos os lagares, durante o período de laboração, predominava, constantemente, um odor muito peculiar, bastante agradável diga-se, exalado pela massa da azeitona esmagada e pelo azeite novo.

     Todos estes lagares, alguns mais que outros,  serviam, à noite, de ponto de encontro para a “rapaziada”. Não raro, a “ malta” era presenteada com a oferta de um “cálicezito” de aguardente (de figo) e umas “passitas” (figos secos) por parte de alguns dos lagareiros enquanto descansavam nos pequenos intervalos da sua cansativa faina e se entertiam ouvindo e contando anedotas com a “malta jovem” nas longas noites de inverno. Não havia televisão nem outros passatempos. O primeiro aparelho televisor de toda a freguesia, foi instalado no Salão Paroquial da Igreja, salvo erro em 1957!... No mesmo ano em que as transmissões televisivas foram iniciadas em Portugal!...Telefonias, haveria, em toda a aldeia, apenas umas três ou quatro, em casas “mais abastadas”!... que nos “faziam o favor” de permitir que, aos Domingos à tarde, ouvíssemos os relatos dos jogos de futebol das equipas da então chamada Primeira Divisão.

     Não nos esqueçamos de que os lagares, no auge da apanha da azeitona e em anos de grande produção, laboravam, ininterruptamente, dia e noite, com pessoal que se rendia por turnos.

“LAGAR DO ZÉ BENTO”

     Ao contrário dos  restantes três lagares, o do Sr. José Bento, era contíguo à residência do seu proprietário, um homem que valorizou Assentis com três filhas professoras e um filho médico, ou seja “deu uma carreira” a cada um dos seus quatro filhos. Sem dúvida um caso assinalável para a época. Há relativamente pouco tempo atrás, em casual conversa amena tida com o Dr. João Bento, em Torres Novas, ficámos sensibilizados pelo modo carinhoso como ele falava do seu pai e da relação exemplar de perfeito entendimento entre pai e filho e pelo especial suporte e encorajamento que ele recebeu do seu progenitor enquanto estudante na Universidade de Coimbra. Mas, regressemos ao lagar.

     Embora sendo, tal como os outros,“hidráulico”,  era todavia o mais pequeno da nossa terra. Quer no que se refere a espaço operacional quer em capacidade produtiva.

     Enquanto, salvo erro, todos os demais eram accionados  por motores “Perkins” (creio que ‘Made in England’), de côr verde, com duas rodas de balanço – não nos perguntem com quantos cavalos de força -, o do Sr. “Zé Bento” era um “Bernard” fabricado na terra dos Gauleses. Mais pequeno, e por conseguinte com menos potência, de côr acinzentada, com apenas uma roda de balanço. E demasiado barulhento, acrescente-se, se comparado com os tais “Perkins” que eram relativamente toleráveis no que  respeita a poluição sonora.

“LAGAR DO TÓNHO MOTA”

     Este lagar foi mandado construir pelos dois irmãos Motas: o Zé e o António,  ambos atrás mencionados, após haverem regressado das “terras do tio Sam” (EUA) para onde haviam emigrado alguns anos antes.

     Decorrido pouco tempo, o António comprou a parte do irmão ficando a partir daí a ser o único proprietário desta unidade fabril. Facto que originou haver sido “rebaptizado” para “Lagar do Tónho Mota”, substituindo assim a inicial designação de “Lagar dos Motas”.

     Este lagar, era o terceiro em espaço e em termos de produção. Veio a ser mais tarde adquirido pelo Sr. Diamantino de Bezelga que, por sua vez o vendeu ao nosso amigo Manuel Tomás, o qual o conservou com todo o seu equipamento até aos nossos dias. Porém, inactivo há vários anos, por o seu dono, haver sido forçado a cessar a actividade do mesmo, em resultado da imposição de novas exigências legais  econòmicamente incomportáveis para o poder manter a funcionar. Foi este, portanto, o último a “parar/morrer”!...

     Mas, sabe-se lá se um dia,  os netos do dinâmico amigo Manuel Tomás, não virão a “ressuscitar” esta “relíquia”, se nela encontrarem viabiliade  económica !?...

     “TUDO MUDA. TUDO SE TRANSFORMA”.

     E tudo é possível, acrescentamos. Se houver condições e vontade para isso.

     A desertificação de hoje poderá, amanhã – quem sabe ? – vir a dar lugar a uma ocupação massiva das aldeias e dos campos, para neles se  produzirem, novamente, alimentos que parecem começar a dar indícios assustadores de escassez a nível mundial,  e cuja escalada de preços – como a dos combustíveis -  estamos todos nós já a sentir- e de que maneira ! -  no bolso, no nosso dia a dia. 

     Para finalizar: Os lagares de que atrás falamos, eram no seu tempo uma referência, (uma mais valia como hoje se diz) na nossa aldeia. Não foi por mero acaso que foi feita a escolha – feliz -  das mós (galgas) dos lagares de azeite para figurarem no símbolo heráldico da freguesia de Assentis.

     Infelizmente nenhum destes lagares  sobreviveu aos desafios e mudanças dos  tempos modernos.

     O seu fim começou a desenhar-se nos anos 60 do Séc. XX quando a desertificação se iniciou, fazendo-os “agonizar”  lentamente, acabando por os obrigar a cessar a sua actividade e a terminar  fechando para sempre.  Deles apenas se recordam, como é natural,  os mais velhos.

     Hoje, a pouca azeitona que se colhe na nossa terra tem de ser moída nos lagares das terras vizinhas, como sejam Fungalvaz, Pena ou Soudos, facto que nos entristece, mas que tem de aceitar-se perante a realidade económica actual.

     E pronto, caros jovens – e não só -  aqui tendes uma pálida ideia de como eram os “nossos” lagares de outros tempos e um pouco da vida da nossa aldeia, nessa época.

     Muito  sinceramente, teríamos o maior gosto em que, quem conhece, trouxesse mais “achegas”, possíveis correcções, simples comentários ou factos a adicionar a este nosso pequeno apontamento. Com isso ganharia a história da nossa terra. Valeu ?

P.S. – Fazemos questão em mencionar a preciosa e sempre pronta  ajuda que nos tem dado o nosso amigo Henrique Conde na clarificação de alguns factos, nomes e outros detalhes mencionados  nos apontamentos que temos vindo  a efectuar sobre o passado da nossa terra. Ao Henrique, o nosso sincero MUITO OBRIGADO.

 
 

Abílio Conde Vieira
 
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