CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas

AS TRÊS FONTES

A Fonte Velha, a Fonte do Tanque e a Fonte Nova.

     Quem bem conhece Assentis, sabe, perfeitamente, que o "Calcanhar de Aquiles" desta terra, e da maior parte das povoações circunvizinhas, foi sempre a ÁGUA. Ou melhor dito, a escassez dela. Essencialmente no Verão. Um problema que ainda hoje subsiste, embora muito menos agudo que em tempos passados. Até ao aparecimento dos furos artesianos e da distribuição directa - por canalização - ao domicílio, a água, em Assentis, no verão, foi sempre um "martírio". Um pesadelo que nós bem conhecêmos, pois vivêmo-lo e sofrêmo-lo "na carne". Desde a nossa infância. Podendo, portanto, testemunhá-lo, com "conhecimento de causa".

     Não espanta, por isso, que, até há um passado ainda relativamente recente, toda a população de Assentis tivesse UM CARINHO E UMA ESTIMA MUITO ESPECIAIS PELAS SUAS FONTES!... PELAS SUAS TRÊS FONTES!....Os locais, públicos, aonde as pessoas se abasteciam do precioso líquido. Para seu uso próprio e para os seus animais. Lembremo-nos que, nesse tempo, praticamente, toda a gente, em Assentis, tal como em todas as aldeias, possuía animais domésticos. Uma coisa que, aos jovens e às crianças de hoje, parecerá um tanto estranho, dada a radical mudança do estilo de vida desse tempo para a realidade actual. Pensamos que a gente jovem não pode conceber na sua imaginação, as estradas e os caminhos da nossa terra, pejados de carros de bois, carroças e galeras puxados por animais. De segunda a sábado. Era assim a vida nesse tempo. Dura !... Felizmente que passou à História, sendo só por isso, e para isso, que a recordamos.

     Ora, as fontes, eram também os locais aonde os rapazes iam com tanto prazer "à fonte", esperar ou acompanhar as raparigas. Não é por simples acaso que existe uma bonita canção portuguesa alusiva à " Fonte dos Namorados". Quantos casamentos, meu Deus, não terão tido início, nas nossas três fontes, ou nos seus caminhos!...

     Falar sobre um tema tão importante na história da nossa terra, não é tarefa fácil. E quem tentar, arrisca-se a fazer uma abordagem incompleta, como, sem dúvida, será o nosso caso. Facto que, ainda assim, não nos leva a desistir. Além disso, pensamos que alguém mais - possivelmente melhor habilitado e informado que nós - poderá e deverá "vir a terreiro", falar sobre este assunto. Debatê-lo.

     A ideia motor que nos levou a escrever sobre as nossas fontes, foi a de que - para além de podermos informar, sem qualquer ponta de saudosismo senil, a gente jovem do nosso burgo, acerca de elementos/símbolos que fazem parte da história da nossa " Loco de Sanctis" - gostaríamos, essencialmente, de ver preservadas, para a posteridade, essas três relíquias do nosso passado. Naquilo que ainda fôr possível restaurar e depois manter. Foi isto que nos motivou. Nada mais.

     Aqui temos, então, as nossas fontes, como elas eram há meio século:

A primeira, a FONTE VELHA.

     O seu nome de "Velha", corresponderá a ter sido a primeira, na terra? É uma pergunta a que não sabemos responder, mas que talvez não ande longe dessa hipótese. Quando "demos conta da nossa existência", já ela era realmente uma "fonte velha"!... Era assim que toda a gente a designava. Desde quando? Isso desconhecemos. Uma identificação que se perde no tempo, estamos em crer. Todavia, pensamos que talvez não fosse má ideia pedirmos a colaboração de " eternos jovens!...", (casos do Sr. Luís da Serrada, da Sra. Ludovina Violante, do Sr. Jacinto, do Sr. Man'el da Quinta, do Sr Cândido do Forno, do Sr. Domingos Sanita, da Sra. Celeste Cancela, do nosso amigo Henrique Conde e de outros, que involuntariamente olvidemos) para darem uma achega. Fica a sugestão, deixando ao nosso amigo "JAC" a "inquirição" e um seu posterior "acrescento" a este nosso escrito.

     Esta fonte (sem que com isto pretendamos ofender alguém), parece- nos, hoje, um autêntico mamarracho!... Fecharam-na, e pronto!... Assim ficou!... É certo, e toda a gente sabe disso, que o seu tempo passou. Mas, por favor... Assim, não!... Perdem-se símbolos da nossa terra!...

     Digam-me: Quem, não conhecendo, poderá sequer pensar que "aquilo" foi em tempos uma fonte? Porque não, a Junta de Freguesia ( ou quem quer que seja, que se interesse por preservar locais históricos) a não restitue à sua forma original?. Aberta, na frente, como ela era e com as duas pias laterais e respectivas bicas ? Salvaguardando, claro, a segurança das pessoas com um pequeno resguardo na "boca da fonte"? Exigiria muito investimento essa restauração? Cremos que não!... E pensamos que até poderiam, eventualmente, aparecer alguns voluntátrios a dar uma "ajudinha". Terá que haver é quem deite mãos à obra. Quem comece. Não temos dúvidas de que as futuras gerações agradeceriam um tal "feito".

     Todo o local circundante desta fonte foi modificado, depois da década de sessenta, cremos que para dar lugar ao alargamento da estrada principal e da rua do Cabêço.Nos nossos tempos de criança, essa área, era o nosso "campo de futebol". Onde jogávamos com bolas de trapos... O terreno não tinha ainda sido aterrado e elevado para o nível da estrada, como hoje lá existe. Recordamos, que dentro da fonte, existia uma roda metálica accionada manualmente por uma manivela. Essa roda tinha uma corrente de pequenos alcatruzes que traziam a água de dentro do poço da fonte para as pessoas poderem abastecer-se.

     Mais tarde, a tal roda de alcatruzes, foi substituída por uma roldana e uma corda, na qual se pendurava um balde que se deixava descer até ao nível da água para daí ser puxado, depois de cheio. Chegado "a riba", esse balde era despejado numa das duas interiores pequenas pias de pedra que, por sua vez, cada uma destas, despejava na sua respectiva pia lateral exterior (pia grande), através de bicas. Era por debaixo destas bicas que se colocavam os cântaros de barro e as infusas. A água excedente ficava nessas tais pias grandes. Numa delas, lavavam as mulheres alguma roupa, já que o lavadouro principal era na Fonte do Tanque, como adiante se refere. A outra, exigia-se que estivesse sempre "limpinha", uma vez que era um bebedouro para o gado: os jumentos, as mulas, os cavalos, os bois, as cabras e as ovelhas. Tenhamos em conta que em tempos passados e até às décadas de 40 e 50 do Século XX, havia na nossa terra grandes rebanhos de ovelhas e alguns, mais pequenos, de gado caprino. Não esqueçamos que a actividade principal da nossa zona era a agricultura e esta não era mecanizada como é hoje.

     Esta fonte, possuía duas nascentes. A primeira, e talvez a principal, tinha a sua origem num poço- que ainda hoje existe - na vinha do Sr Luís da Serrada, a menos de cem metros dali, mas já no Paiol. Através de um engenhoso sistema de condutas subterrâneas aí iniciado, todo ele construído em tijolo.

     A água nascida nesse poço, chegava, por desnível, à Serrada, aonde ia abastecer, além da residência do Sr. João Sousa Rosa, trisavô do amigo "JAC", também o seu enorme "forno de telha"". Uma cerâmica que - a ajuizar por aquilo que chegou ao nosso tempo, por aquilo que os nossos olhos puderam ver, quando em criança brincávamos dentro dessa enorme fábrica desactivada, e por tudo o que então ouvíamos dos adultos - terá sido algo do mais avançado para a sua época. Dela ainda resta a chaminé.Altaneira e marcante. Como que orgulhosa de um passado grandioso. Aproveitamos para aqui apelar aos seus proprietários que a conservem, se tal for possível. Por se tratar de um "monumento" de Assentis, situado ali junto ao Campo da Pinheira. Hoje um local previlegiado. Bem visível. Como que a dizer-nos "sou o resto de um corpo gigante, não permitam que eu desapareça".Nessa chaminé, foi instalado, julgamos nós, o primeiro pára-raios na área.

     Voltando à água: O precioso líquido que corria nessa conduta, rumo à Serrada, abastecia também, como atrás se disse, a Fonte Velha. Daqui, partiam duas derivaçðes: uma destinada à Fonte do Tanque. E a outra para a Serrada, com passagem aberta pela "Clara-Bóia", à Ceboleira, cuja saída de água nesse local, para um pequeno regato, permitia que nos poços ali à volta não faltasse o precioso líquido e as pessoas pudessem matar a sede nessa "Clara-Bóia".

     A segunda nascente da Fonte Velha era dentro do seu próprio poço.Atente-se que dali até lá acima ao alto do Paiol, a água dos poços era relativamente abundante e óptima para beber.Ao contrário dos nossos dias em que na sua maior parte se encontra poluída (a poluição tem sido o reverso da medalha do progresso) Só em anos de grandes secas ela desaparecia.

     Para terminar sobre a Fonte Velha: Quantos cântaros de água carregámos, ao ombro, dali, pelo Cabeço acima, até à casa onde nascemos e fomos criados!... Possuir um burro e cangalhas para a transportar, era privilégio ou luxo que as condições económicas da nossa casa de modo algum possibilitavam!... "Cacau" para comprar um burrito?, Nem pensar!...Tínhamos já dezasseis anos feitos quando tivemos a primeira bicicleta. E para isso foi preciso que uma tia nossa, de Peras Ruivas, que então vivia em Lourenço Marques, generosamente nos tivesse oferecido o "pilim" para a comprarmos. Sem dúvida que as enormes dificuldades desses duros tempos não nos deixam saudades.

A segunda, a FONTE DO TANQUE.

     Tudo indica que a designação "fonte do tanque" tem origem no enorme tanque/lavadouro contíguo. Um lugar aonde as mulheres e as raparigas da nossa aldeia, iam lavar a roupa e aproveitar para "dar à língua". Quando cheio de lavadeiras era, para além de um colorido marco de vida activa, e do pulsar de uma terra, um ponto de algazarra sadia, aonde, sendo todas lavadeiras, as "cantadeiras" se sobrepunham às "faladeiras". E se algumas cantavam bem!...Dava gosto ouvi-las. Quantas gerações por ali passaram!...

     Esse tanque/lavadouro, tendo sido beneficiado, há alguns anos, com um telheiro, era a céu aberto desde o início, facto que o tornava pouco convidativo quando chovia. E nessa época, sem dúvida, chovia muito mais que hoje chove.

     Esta Fonte do Tanque, ao contrário das outras duas fontes, dispensava extra esforços para obtermos a água, já que ela saía- e ainda sai - de uma bica que despeja num pequeno tanque, cuja água dali passa directamente para o "TANQUE" grande (lavadouro público) Para se encherem os cântaros ou as infusas, bastava baixarmo-nos um pouco e colocar a boca da bilha por debaixo da bica que, ininterruptamente, durante os 365 dias do ano, dia e noite, nos oferecia generosamente o precioso líquido.

     Tal como as outras, também esta fonte, só em anos de extrema seca veraneia, nos negava a água. Era ali que a grande maioria da população se abastecia. A nossa família não era excepção, claro, pelo que todos, também de lá carregámos, "muita águínha" para nossa casa, Deus seja louvado !...

     Resumindo e repetindo: esta fonte foi sempre o principal ponto de abastecimento de água da nossa terra.

     Ali juntinho, mas ao nível da estrada, havia também uma enorme pia, de pedra, que as pessoas continuamente enchiam para permitir dar de beber aos animais, tal como atrás referimos. A água dessa pia, nos dias mais frios de inverno, congelava. Formava um enorme bloco de gelo, muitas vezes com elevada espessura.

     Porventura, sabem, os jovens e as crianças de hoje, o que a "canalha" do nosso tempo fazia com esse gelo, de manhã cedo no seu caminho para a Escola?

     Primeiro que tudo, num esforço colectivo, tirávamos o bloco inteiro para o chão. Depois, alguns "valentðes" descalçavam-se e saltavam -lhe para cima, como que a dizer:"Vejam como sou forte, o frio não me afecta"!...A seguir o bloco era partido em pedaços, levando, cada um de nós, dois ou três bocados grandes desse gelo, para a Escola !... Nas mãos!...Frio de rachar...mãos engadanhadas...mas... dar parte de fraco?!... Isso nunca!... Corríamos com ele, atrás das raparigas da "escola de meninas"(nesse tempo não havia escolas mistas, o edifício escolar era dividido em duas partes separadas; de um lado os rapazes, do outro as meninas) fingindo ameaçá-las que lho iríamos pôr no pescoço! Para lhe cair pelas costa abaixo!...O que, claro, nunca aconteceu.

     Divertíamo-nos vendo-as fugir à nossa frente. Por sua vez, elas, fingindo-se amedrontadas, divertiam-se igualmente. Colaborando, portanto, nestas "jogadas". E tudo acabava por ali. A bem!.. Nada de abusos! Os professores não perdoavam qualquer excesso!... Respeitinho, sempre!...

     Não havendo divertimentos, nem televisão, éramos forçados a usar a nossa imaginação, recorrendo a tudo o que nos pudesse proporcionar entretimento. Este, para além de muitos outros que dariam "pano para mangas" , era um dos nossos "recursos" de diversão.

    Para terminar sobre a Fonte do Tanque:

     Exactamente em frente da tal pia grande, mas do lado oposto da estrada, tinha o Sr. Domingos da Nora, um pereiro, que todos os anos carregava de lindos "peros cabaços", de um paladar inigualável. Toda a "canalha" da aldeia provava daqueles peros, sem prévia autorização do seu dono!... O que vale, é que tanto ele, como a esposa, a "Snheu Mari da Nora" (como nós lhe chamávamos) faziam "olhos cegos e ouvidos moucos", permitindo que a "miudagem" se fosse deliciando com os seus óptimos peros cabaços. A final chegavam para os donos e para a "cachopada"!...

     Um outro elemento ligado ao Tanque, que de forma nenhuma, poderíamos olvidar e que, imperdoavelmente, quase esquecíamos, é o "Lagar do Snhô Zé Mota" (para a "miudagem") ou simplesmente "Lagar do Zé Mota" (para os adultos). Esse lagar de azeite, tinha na sua frente um alongado alpendre que servia de abrigo às lavadeiras quando a chuva as obrigava a procurar protecção para não ficarem "ensopadas que nem um pinto". Abrigo esse que não era utilizado só pelas nossas conterrâneas. Muitos grupos de ciganos "abancavam" continuamente debaixo desse alpendre. Facto que era pouco do agrado da população local, mas... É que esses nómadas, por várias vezes, "compravam"!... produtos das fazendas sem falar com os seus donos!... "Compravam" e "cavavam" logo!... Sem deixarem rasto. Daí, nesse tempo, ninguém morrer de simpatias por eles.

A terceira e última, a FONTE NOVA.

     Quer-nos parecer que o termo "fonte nova", resultará, de ter sido construída, depois das outras duas já mencionadas. A mais nova. Donde o termo "Nova"? Pensamos que se tratava - e trata - mais de um reservatório de água que propriamente de uma fonte na verdadeira acepção da palavra. Em tempos idos havia ali uma enorme roda de balanço, movida manualmente por uma manivela, a qual accionava uma bomba para se poder extrair a água de dentro do reservatório. A bica, essa, ainda ainda lá permanece, voltada, em sentido vertical, para baixo, como sempre a conhecemos. Mas, a roda de ferro, aonde foi parar? Julgamos que também esta "fonte", se fosse possível, se deveria tentar reabilitar, como símbolo/monumento para as gerações futuras. Na verdade, uma fonte emblemática de uma localidade.

    

     Para concluir: Cientes de que muito mais haverá a acrescentar ao tema das nossas três fontes, esperamos, sinceramente, como já referimos, que o assunto não termine aqui com este nosso modesto apontamento.

     Assentis e a sua História merecem-no. E ficam a aguardar.

 
Um abraço.

Abílio Conde Vieira
 
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