CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas

Epicentro de Luz e Calor

     Faltavam 5 dias para o Natal, o tempo estava chuvoso e frio, com o cair da noite ainda mais se acentuava essa aragem gelada. Eram quase 9 horas da noite e depois do jantar o pessoal juntou-se ( qual formatura ) no largo contíguo ao parque infantil. Missão: Juntar lenha para a fogueira de Natal.

     Durante o dia alguns olheiros encarregaram-se de localizar algumas “ sapatas “ que iriam certamente contribuir para mais uma vistosa fogueira. Os veículos para transporte da lenha eram na altura em número reduzido, mas entre uma camioneta, um tractor com reboque e um simples tractor de varais, alguma coisa se conseguia arranjar, e assim lá se partia para mais uma saudável azáfama nocturna. Os caminhos eram difíceis e perigosos e a iluminação do veículo também não ajudava em nada, no entanto a vontade e o orgulho de contribuir para tão singelo momento, suplantava todos os receios, que diga-se em abono da verdade raramente apareciam. As viagens sucediam-se, até que por volta da meia-noite terminava a tarefa desse dia. Era tempo de contar as peripécias ocorridas e de confraternizar mais um pouco. Este ritual era repetido até à véspera de Natal, altura em que a tarefa passava a ser de amontoar devidamente a lenha para que à meia-noite pudesse a fogueira ser acesa. Por baixo da lenha colocavam-se estrategicamente pneus velhos para que servissem de acendalhas gigantes.

     Religiosamente à hora certa a fogueira era acesa e entretanto chegavam as primeiras pessoas para trocar dois dedos de conversa e reconfortar-se no calor que ela proporcionava. Com o passar do tempo o largo chegava a ser pequeno para tanta gente. Por aqui iam passando muitos dos nossos conterrâneos que aproveitavam a quadra para vir à nossa terra, era por isso um grande ponto de encontro onde noite fora se punha a conversa em dia e se reforçavam os laços de amizade.

     A noite avançava e os mais resistentes iam ficando muitas vezes alimentados por um cálice de vinho do porto ou um copo de vinho que algumas almas mais generosas traziam. De quando em vez apareciam uns “ viajantes “ que tinham calcorreado as outras terras e que vinham dizer que a nossa fogueira era a maior ou que a da Beselga não ficava atrás ou ainda que a do Outeiro Pequeno tinha tido dificuldades em acender, esta saudável concorrência fazia-nos pensar que para o ano, a nossa teria de ser ainda maior para ser avistada ainda mais longe.

     A verdade é que quando a noite terminava havia em todos nós um sentimento de que tínhamos contribuído para um momento de alguma forma especial para a nossa terra e que o simples facto de o poder proporcionar nos realizava a nós também. Esta tradição encerrava em si uma série de significados aos quais não podemos ficar alheios sob pena de contribuir para um maior afastamento das pessoas. Aquela fogueira era uma fonte de calor, de luz e de côr para uma melhor noite de consoada, era um ponto de são e genuíno convívio, mas acima de tudo juntava uma comunidade em torno de um ponto comum, a fogueira, e é esse o significado que não podemos deixar perder para que com uma convergência de esforços se faça da nossa terra ainda MAIOR.

     Um Santo e Feliz Natal para todos.

 
Um abraço.

José Perdigão
 
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