CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
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AINDA CHOVE ?

     Esta história, que poderemos apelidar de "trágico-cómica", julgo ter acontecido aí pelos finais dos anos 30 ou princípios dos anos 40 do século XX. Vou contá-la, tal como a ouvia, desde os meus tempos de criança, narrada pela minha mãe e pelas nossas vizinhas e vizinhos, dessa época, no Cabeço da Fonte Velha.

     Pela forma e pela ênfase com que era relatado, creio tratar-se de um acontecimento verdadeiro. Facto que, eu penso, poderá ser testemunhado pelas pessoas, de mais idade e felizmente ainda vivas, da nossa terra.
     Acontecimento esse, eventualmente, passivo de algum acréscimo ou correcção, sempre bem acolhidos, como não poderia deixar de ser. Da minha parte, nada mais pretendo fazer, senão, tentar transmitir, fielmente, uma história tal como ela me ficou gravada na memória desde a minha infância. Uma história, com o seu quê de caricata, e simultâneamente, um tanto trágica.

Vamos, então à história:

     Determinado comerciante, não sei se de Ourém, se da Charneca, (Charneca era a toponímia da actual Vilar dos Prazeres), foi com a sua camioneta com carroçaria e taipais (hoje dir-se-ia, talvez, "camioneta de caixa aberta") abastecer-se ao mercado semanal de Torres Novas, que então se fazia, pontualmente, à segunda-feira e não à terça, como agora acontece. De referir que os mercados semanais desse tempo, eram autênticas feiras super abastecidas de produtos e que fervilhavam de gente (várias centenas de vendedores e milhares de compradores). Autênticas multidões. Locais onde se vendia e comprava de tudo. Em pequenas e grandes quantidades. E a preços inferiores ao do comércio estabelecido. Daí a razão da sua popularidade, da sua força e da sua continuidade através dos tempos e das gerações. Pena que tenham decaído para uma quase insignificância nos nossos dias. Um dos factores dessa decadência foi a vida rural que mudou - felizmente para melhor - e com ela a actividade das gentes, especialmente das aldeias. Outros dos motivos, a proliferação das grandes superfícies que veio abalar - e de que maneira - esses mercados de que falamos.

     Ora, o tal comerciante, depois de haver efectuado as suas compras e com elas haver carregado a sua viatura, quando se aprontava (ele e o seu ajudante, lembremos que ao tempo todo o "chauffeur" tinha o seu ajudante), para regressar ao local donde partiu, foi interpelado por um indivíduo, seu conhecido, no sentido de lhe "dar uma boleia" até à Lagoa do Furadouro. Pedido a que o condutor e dono do veículo, acedeu, dizendo: "Vá lá para cima - apontando a corroçaria - e acomode-se no meio da carga".

     O "passageiro", sem demora, cumpriu a ordem. E minutos volvidos, a camioneta iniciava o retorno a casa. Porém, quando ele tentava alojar-se, o melhor possível, por entre a mercadoria, teve um arrepio ao deparar-se com um caixão. Susto que ultrapassou de imediato ao verificar que era apenas um caixão novo e vazio que o comerciante tinha adquirido para posterior venda no seu estabelecimento. Ou seja um artigo, como qualquer outro, que o logista fora comprar ao mercado para depois vender na sua loja.

     A jornada prosseguia normalmente, até que começou a chuviscar.

     Sem qualquer outro recurso que o protegesse da chuva, o homem lembrou-se do caixão. Se bem o pensou, melhor o fez. Abriu a tampa e meteu-se lá dentro, deixando uma ligeira abertura para poder respirar.

     E lá seguia "encantado da vida", optimamente protegido da intempérie. Talvez até bem abanado.Quem sabe se até "passando pelas brasas", muito bem instalado que por certo se sentia. Ou não ? Tendo em conta o piso nada convidativo das estradas desse tempo. Mesmo as alcatroadas, "sabe Deus.!.." Lembremo-nos que o alcatrão terminava nas Terras Pretas !... Daí para a frente, quer até Ourém, quer até Tomar, ambas as vias eram de "macdame" ( saibro. areia, terra, brita e pedra de tamanho aproxinado ao usado nas calçadas).

     Precisamente, nas Terras Pretas, quando o comerciante parou para ir com o seu ajudante "beber um copo" a uma taberna, e, depois disso , se preparava para reiniciar a marcha, veio um outro sujeito, também seu conhecido, pedir-lhe que o transportasse até à Charneca, dando-lhe "boleia", como fizera ao primeiro.

     A resposta foi esta:

     "Olhe, vá lá para cima e ajeite-se. Já lá está outro".

     Chegado "lá acima", o novo passageiro, não viu "o outro", que lhe fora mencionado, segundos antes.

     Em vez disso, arrepiou-se quando ali viu um caixão. Pensou, porém, que o condutor da viatura, ao mencionar "já lá está outro", deveria referir-se a um 'morto' que estaria dentro desse mesmo caixão. E tratou de se acomodar, como pôde.

     Prosseguia a viagem. Com tudo normal. O "morto" não dava - nem poderia dar, no entender do segundo passageiro - sinal de vida.

     Só que, a determinada altura, creio que não longe do Outeiro Grande, com a camioneta a transitar a boa velocidade, o homem que viajava dentro do caixão - o tal "morto-vivo", levantou a tampa desse ataúde e, em alta voz, para que o outro o ouvisse, perguntou:

     Ainda chove ?"

     O pobre do segundo passageiro, parecendo que tinha sido empurrado por uma mola, salta sem qualquer hesitação, da camioneta abaixo.

     Imaginemos as consequências dessa queda !...

     Todos os membros - braços e pernas - fracturados.

     Por outras palavras, "todo partido". Não tendo "ido para os anjinhos", por um milagre !... O certo, é que, após longos meses de internamento no velho Hospital de Torres Novas, sobreviveu.

 

 
Saudações amigas.

E nada de saltar de veículos em andamento !...

Abílio Conde Vieira
 
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