CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crnicas

“FOOT-BALL”  EM ASSENTIS

     Em fins de Março, foi-me lançado um repto pelo nosso amigo e conterrâneo Abílio Conde Vieira que reside na África do Sul. Dizia na altura o amigo Abílio, que seria interessante escrever sobre o início do  futebol em Assentis e que para tal a pessoa indicada seria eu. Agradeci o voto de confiança e prometi interessar-me pelo assunto. Por ironia do destino, mais ou menos à mesma hora em que escrevia a crónica que se segue, falecia no Hospital  de Torres Novas aquele que alguns  dias antes,  cheio de entusiasmo e pondo à prova a sua  razoável memória  apesar dos oitenta anos vividos, me proporcionou  os elementos necessários: O meu querido irmão JOAQUIM ADELINO DE SOUSA TOMÁS, a quem presto aqui a minha homenagem.

     Segundo  o que me relatou o “J’quim da Rita”  tudo começou em finais da década de quarenta do século passado. Lá por volta de 1948, a rapaziada de Assentis e dos Casais de Igreja  num esforço comum, deitaram à terra as sementes do que viria a ser o Futebol em Assentis. Deitaram literalmente à terra as sementes porque até que houvesse um campo minimamente aceitável para a prática do jogo da bola, foi necessário mexer em muita terra como adiante se verá. Foram pioneiros, entre outros cujos nomes se apagaram da memória ,  pelo lado de Assentis o Chico “Setenta”,  Abel Conde, Henrique Conde,  Afonso “Pilatos”, José Violante “Galhofa”, Joaquim “da Rita”, Zé “da Rita”, Manuel “Lata” e Luís “Lata”. Por Casais de Igreja, há memória de Augusto “da Santa”, José “da Rosa”, Chico “Marrã”, Manuel Lopes e “São Pedro”.
                                             
     Os primeiros encontros, disputados invariavelmente entre a Assentis e os Casais de Igreja, realizavam-se num terreno no sopé da serra a seguir à Charruada e por entre as oliveiras. Este improvisado campo de jogos dava origem a que houvesse sempre  quatro equipas no terreno: Assentis, Casais de Igreja, Arbitragem e... as oliveiras que era preciso driblar para visar a baliza contrária. Até 1950 mantiveram-se os “jogos a feijões” disputados no “Campo das Oliveiras”. Por essa altura, Assentis declarou unilateralmente a sua independência,  deu por dissolvida a coligação com os Casais de Igreja e decidiu construir um campo de futebol a sério.
                                        
     Num terreno cedido pelos Sr. João “da Sarrada” e Sr. José Costa, localizado onde hoje se encontra o Campo da Pinheira,  iniciaram-se os trabalhos de limpeza e terraplanagem. Infelizmente as coisas correram mal logo de início. Como não havia dinheiro para alugar uma máquina, foi necessário meter mãos à obra, ou seja, fazer o trabalho à mão. O principal obstáculo eram duas ou três galgas de moer azeitona que se encontravam no meio do terreno e que deviam pesar para cima de 500 quilos cada uma. A primeira coisa a fazer era tirar as mós dali para fora. Conseguiu-se pôr uma na vertical com a intenção de a fazer rolar para local mais conveniente, mas por azar, falta de cuidado ou falta de forças, a galga tombou sobre a perna esquerda do Manel Tomás, esmagando-a. Transportado para Lisboa, o Manel Tomás por lá ficou internado num hospital durante longos meses. Este trágico contratempo desmoralizou a rapaziada e o projecto ficou adiado. Não ouve outra alternativa que não fosse recomeçar a jogar no velho “Campo das Oliveiras”, agora já com a participação de novos elementos, de entre eles o Adelino “da Rita” e o Joaquim “Zefo” que viria pouco tempo depois a se o grande impulsionador para  o reinicio do projecto de um novo campo.

     Ainda durante o ano de 1950, a malta, apoiada no entusiasmo do Joaquim “Zefo”, resolveu, como atrás se disse,  reatar o projecto do “Campo da Pinheira” mas,  para que ficasse com as medidas regulamentares, eram necessários mais cerca de dez metros de terreno para aumentar o comprimento do campo. Os dez  metros de terreno a “expropriar” pertenciam ao Sr. Luís “da Sarrada” que apenas cedeu aquela faixa de terreno depois de longas e demoradas conversações e com a condição “sine qua non”, de serem mantidas de pé duas pinheiras lá existentes. Pelo menos uma ainda lá está a dar o nome ao campo de futebol de Assentis.
                                       
     Resolvido o problema do aumento do campo, o Joaquim “Zefo” tratou de alugar uma máquina de terraplanagem que veio da Quinta da Sardinha. Infelizmente o operador não era lá grande coisa na sua arte e em vez de espalhar imediatamente a terra uniformemente, resolveu fazer pequenos montes para depois espalhar nas partes de terreno mais baixas. Com esta opção gastou-se precioso e caro tempo. Nesta fase dos montinhos, o custo do aluguer da máquina já estava em seis contos de réis, quantia bastante elevada naquela época. A única alternativa era suspender o trabalho da máquina e espalhar a terra à pá. Como não havia dinheiro que chegasse para pagar o aluguer da máquina, decidiu-se fazer uma proposta ao Lar de Santo António cujos dirigentes eram os Srs. Domingos “da Nora”, José Domingos e Jacinto. A proposta consistia em juntar o Grupo Desportivo ao Lar de Santo António para assim, em comunhão de esforços, arranjarem a verba necessária para pagar a importância em dívida. A proposta não teve receptividade por parte dos dirigentes do Lar de Santo António e assim, o Joaquim “Zefo” viu-se metido “em maus lençóis”. Como já havia uma equipa  mais ou menos estruturada, a solução foi organizar  uns torneios de futebol. Com a ajuda de uns garrafões de vinho e umas sardinhas assadas vendidos durante os jogos, foi possível arranjar  dinheiro para pagar o que se devia. Nascia assim, de “parto difícil”, o grupo de futebol de Assentis. Fizeram parte da equipa fundadora, o Joaquim “Zefo”, Ismael, Luís Conde, Manuel Conde, António Cancela, José Luís, Henrique (electricista), José Agostinho, Tino, Zeca Fernandes e outros rapazes de Fungalvaz e Casais de Igreja. Os irmãos Joaquim e José “da Rita” já não integraram a equipa porque entretanto partiram para Angola.

     Mais tarde, houve finalmente a fusão entre o Grupo Desportivo e o Lar de Santo António, dando lugar ao actual Centro Recreativo e Cultural de Santo António de Assentis. Antes de subir aos campeonatos distritais, a equipa de futebol disputou torneios do INATEL tendo como patrocinador a “Arca Velha”. Já nos distritais foi patrocinada pela “Condóptica”.

     Aqui fica o relato do que foram os primórdios do “Foot-Ball” em Assentis e fica igualmente um apelo aos atletas e dirigentes aqui referidos e que pela Graça de Deus ainda estejam entre nós, para que completem ou corrijam se for caso disso, a crónica que acabaram de ler. Façam-no ou peçam aos vossos filhos e netos para o fazer.

                    É minha intenção numa próxima oportunidade  descrever as peripécias que rodearam algumas partidas disputadas nessa época.

 
 
Saudações amigas para todos.

Alfredo Sousa Tomás
 
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