CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
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O “JAXOFONE” OU A IMPORTÂNCIA DA CORRECÇÃO

     Como certamente os frequentadores mais assíduos do “Assentis.org” saberão, sou suspeito para falar do “Corrector”. Mesmo assim e correndo o risco de não ser totalmente imparcial, não me coíbo de dizer que as suas passagens esporádicas pelo “Livro de visitas” se têm traduzido num saldo positivo. Apesar de ele próprio já ter sido oportunamente corrigido (ninguém é infalível) e mesmo tendo em conta uma ou outra reacção mais azeda às suas chamadas de atenção, entendo que a sua presença é útil.

     Foi precisamente por notar alguma contestação às suas últimas intervenções que me lembrei de vos relatar um episódio passado nos idos anos sessenta do século passado. Em 1963, se a memória não me atraiçoa, a RTP transmitia aos Sábados à noite, um concurso de que já não me recordo o nome e que era apresentado por Artur Agostinho. A sua estrutura era resumidamente a seguinte: Utilizando quase todas as letras do alfabeto (algumas eram excluídas), os espectadores elaboravam uma lista versando determinado tema (nomes de rios, escritores, capitais, meios de transporte, etc. etc.) e enviavam-na para a RTP para apreciação. Se o tema fosse seleccionado pela RTP, seria apresentado a concurso na semana seguinte. Em estúdio, os concorrentes (creio que eram cinco), isolados em pequenas cabinas tinham diante de si e visível pelos espectadores um “placard” com as letras do alfabeto. Aleatoriamente acendia-se uma letra do “placard” e o concorrente que mais rapidamente dissesse um nome aliado ao tema escolhido e começado pela letra seleccionada, ganhava determinada quantia. Se falhasse, ganhava o espectador que havia enviado o tema. Em resumo era isto de que se tratava. Simples, instrutivo e “terrivelmente hilariante” como a seguir se constatará.

     Numa determinada sessão, o tema escolhido fora “Instrumentos musicais”. Mais ou menos a meio do concurso, acende-se a letra J (jota) e um concorrente de meia idade que até então estava a fazer uma prova interessante, responde imediata e convictamente...JAXOFONE! Não! Não lhe faltavam os dentes da frente que o impediam de dizer o S. Trocou mesmo o “esse” por um “jota”. A gargalhada geral em todo o país deve ter-se ouvido até na vizinha Espanha. Todos os jornais da manhã seguinte se referiram ao caso.

     Também fui dos que riram a bandeiras despregadas. Mas ao ver o ar de espanto e incredulidade com que o homem ouviu os membros do júri dar como errada a sua resposta, pensei cá para com os meus botões que o concorrente era mais merecedor de dó e piedade do que de chacota. Afinal de contas estava a passar por uma humilhante vergonha sem ser culpado. Os verdadeiros culpados eram os seus amigos e conhecidos que, qual “correctores de Peniche”, andaram toda uma vida a ouvi-lo dizer “jaxofone” sem que tivessem a coragem de o corrigir.

     Assim sendo meus amigos, se o “Corrector” por aí aparecer de novo (o que é pouco provável) sejam tolerantes para com ele. Lembrem-se que talvez vos possa livrar de alguma humilhação semelhante à do “Homem do Jaxofone”.

     Saudações amigas para todos.


Alfredo Sousa Tomás
 
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