CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas

Onde vagueiam as nossas referências culturais?

      Há alguns dias, fui assistir a um debate sobre “Património Local”, em Torres Novas, organizado por um partido político, onde foram dissecadas algumas ideias e pontos de vista sobre o tema, que me levaram a escrever estas linhas.

      Ana Rodrigues, arqueóloga, referiu que existem 122 sítios arqueológicos no concelho e mais à frente lembrou que existem vestígios únicos em Torres Novas, “irrepetíveis e que todos temos o dever de preservar”.

      Já Abílio Fernandes, ex-presidente da Câmara de Évora salientou que Torres Novas precisa de valorizar o que tem, seja património edificado, gastronomia ou tradições culturais: “Sem identidade cultural, o município perde as suas referências”.

      Ora, remoendo estas palavras e perdoem-me pôr Assentis e Fungalvaz no mesmo saco, vieram-me à memória as nossas referências, algumas já muito diluídas na memória dos mais velhos: os moinhos da Pena e de Fungalvaz (pois é, caso não saibam, lá existem cinco moinhos), os lagares de azeite, as azenhas (três em Fungalvaz), os ranchos folclóricos de Assentis e Fungalvaz, a desfolhada nas eiras, as manifestações religiosas e pagãs, as touradas (contadas pelo Alfredo Tomás), a “indústria” na Fonte Velha, o campo de futebol na serra, os fornos de telha em Assentis e Casais de Igreja, o jogo da bola de pau na Liberita ou a “pulha” em Fungalvaz.

      Para quem não sabe, a pulha era, e escrevo era, porque penso que também caiu no esquecimento, uma brincadeira que se fazia no Carnaval: a altas horas da noite, pegávamos nos funis de latão que se usavam para encher os pipos e íamos para os moinhos “atirar” quadras à desgarrada às pessoas. Umas eram mais jocosas e outras mais ofensivas, consoante a imaginação de cada um. Ou seja, dependia de quem quiséssemos elogiar ou caluniar. E então era assim: enchíamos os pulmões de ar, púnhamos o funil da boca e cá vai disto:

      “Puuuuuuulha!
      Tooooooou aquuuuuuuuuui a atiraaaaaaaaaaaar uma puuuuuuulha….
      Em cima de um bidão…
      Esta puuulha, é dedicada ao meu amigo Perdigão!

      E caso pretendêssemos caluniar algum “amigo” de estimação, usávamos vocabulário mais indecoroso. Depois da primeira pulha, os cães começavam a ladrar e passados alguns minutos já ninguém conseguia dormir com tanta algazarra. E assim, as pessoas lá ficavam à espera de ouvir um elogio ou uma ofensa. Como a voz era ampliada e distorcida, ninguém a conseguia conhecer. No entanto, nos dias seguintes não podíamos sair de casa porque ficávamos afónicos.

      Este é apenas um dos exemplos das nossas tradições e referências que se não forem preservadas irão parar ao baú dos tempos. Tal como as muitas histórias que a Anita Rosa tem para contar acerca do rancho (como surgiu, como foi feita a recolha das músicas, danças e trajes, porquê aquelas cores, quem costurou, onde actuaram, as letras, etc.) e todas as outras histórias sobre os vários assuntos que vos referi.

      O riquíssimo património cultural que existia nas aldeias está a perder-se lentamente sem que quase nada possamos fazer. No entanto, vão surgindo os valiosos contributos de Alfredo Tomás ou de Abílio Vieira, pois poderão não parecer importantes, mas são registos que ficam para a posteridade. Quem sabia das touradas ou da “indústria” da Fonte Velha, só para focar alguns assuntos? Quase ninguém, atrevo-me a escrever. E daqui a alguns anos, os mais novos também poderão ficar a conhecer estas estórias que fomentaram a história das nossas terras.

      Isto tudo a propósito da tirada do ex-presidente da Câmara de Évora: “Sem identidade cultural, o município perde as suas referências”. Qualquer aldeia, por mais pequena que seja, tem a sua identidade cultural construída ao longo de séculos. No entanto, corremos o risco de a perder. Não sei a quem deveremos recorrer, mas o poder político terá uma palavra a dizer. E nós todos temos o dever de contrariar as rotundas e hipermercados (que não critico, ressalve-se) em prol da nossa identidade.

      Abraço e até breve.


Nuno Matos
 
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