CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas

INDÚSTRIA NA FONTE VELHA

      Na vida tudo muda. Tudo se transforma com o tempo. E a vida, de uma povoação, - o seu pulsar - forçosamente obedece também a esta imutável e implacável lei natural. Foi exactamente o que aconteceu ao bairro da Fonte Velha.
      Julgamos poder afirmar, sem exageros ou receio de desmentido, que nas décadas de 40 e 50 do século XX, o Cabeço da Fonte Velha era a zona onde se concentrava mais indústria na nossa terra. Ali laboravam, nessa época, duas oficinas de sapataria, uma oficina de carpintaria e tanoaria, uma oficina de ferreiro e chaveiro, uma oficina de serralharia e caldeiraria e ainda uma família dedicada à construção civil. Não no Cabeço, mas digamos ali pegadinho a ele, havia também a destilaria do “Snhô Tónho Mota” e o seu lagar de azeite. Este hoje transformado no Restaurante ‘O Lagareiro’ (passe a publicidade). Não esquecendo também a destilaria do “Snhô D’mingues da Nóra”.Tudo isto, para além das actividades agrícolas em que a maioria da população, como sabem, se ocupava.
      Vou, então, tentar descrever essas “fabriquetas”, tal como elas me  ficaram gravadas na  memória desde os tempos de infância, quando eu e toda a “garotada” do bairro por ali brincávamos nessa época, estorvando, muitas vezes, quem trabalhava. Sabem?, havia então muita criança por ali!... O que hoje, infelizmente não acontece. Bem, mas deixemos estes apartes e vamos ao tema:
                                                
       Começo pela carpintaria e tanoaria do “Snhô Xkim do Hugo” que era pegada à sua casa de habitação. Defronte da casa do “Tónho da Moça, sapatêro”e d’”Ássunção”, saudosos progenitores de quem, modestamente, rabisca estas linhas. Essa oficina já não existe, embora parte da casa ainda lá esteja. Creio que hoje pertença da filha Fernanda, residente em França. Ali se fabricavam mesas, cadeiras, bancos, guarda-fatos, armários, cantareiras, arameiras, masseiras, enfim, de uma forma geral, todo o mobiliário doméstico que as famílias de  médios e de fracos recursos económicos adquiriam, e cuja clientela, além de  abranger Assentis e arredores, se espalhava ainda pelos concelhos de Ourém e Tomar. Uma considerável parte da actividade daquela mini-fábrica era a tanoaria. Dali saíam, a brilhar- como tão bem recordo!... pois morava mesmo em frente -, dornas, tonéis, pipas, selhas, barris e canecos, “tudo novinho em folha”. Até caixões ali eram fabricados. Esta oficina cessou a sua actividade após a morte do seu proprietário, ocorrida aos cinquenta e poucos anos de idade, deixando viúva a “Snheu Mari da Xtina” e, salvo erro, sete filhos.

      Passemos, a seguir, à pequena oficina de ferreiro/chaveiro do “Snhô Manel Bento” (‘Pingarelho’,com todo o respeito, como é evidente). Este senhor, que na época tinha já “uma idade nada jovem”, era uma figura de certo modo muito típica. Frequentemente, “um tanto alegre”, mas ainda assim trabalhando, soldando, malhando ferro,  donde saíam essencialmente ferramentas agrícolas e fechaduras. Por vezes “lá se excedia um pouco mais”, mas Baco, por certo, o protegia, quando o “J’ão da Brisa”, qual seu anjo protector, não estava presente para o ajudar na caminhada até ao ninho. Repetimos ser o “Snhô Manel Bento” uma figura típica. Logo que ele via “a canalha” a  rondar a sua oficina, resmungava, barafustava, gesticulava, para minutos depois nos perguntar em voz que parecia zangada, mas não era: “O ké k’vocês kérim”? Mal acabadas de ser proferidas estas esperadas palavras, que para nós eram o sinal verde para avançarmos, era ver-nos todos a correr para junto dele. Cada qual com o seu arco de ferro, partido ou retorcido, esperando que das suas mãos saísse o milagre da reparação, DE BORLA! Claro. Porém, sempre com a “solene” advertência: - “É a última vez. ‘Desaparêçum’ daqui p’ra fora...”.- Será necessário acrescentar aqui quanta felicidade aquele bondoso homem (já velhote) transmitia àquelas crianças? Eu sei avaliá-la. Porque era um dos protagonistas desse grupo a quem ele soldava, malhava, endireitava, retocava, etc., os arcos de ferro que eram os nossos preciosos brinquedos, quais tesouros inseparáveis. Esta oficina, situava-se por detrás da sua casa de habitação. Pegada à casa. Em Dezembro passado (2006), ainda estava de pé a construção, cuja oficina acabou quando faleceu o seu dono..

      Descrita a actividade do pai, vamos à do filho. O “Snhô Manel Bento Pingarelho Filho”. Repito, com o devido respeito, a referência à alcunha. Este senhor “era um artista”, como frequentemente ouvíamos. Paralela à de seu pai, e também ligada pela parte traseira à sua casa de habitação, esta oficina, para uma aldeia sem corrente eléctrica, como era o caso da nossa terra nesse tempo, estava equipada com o que de mais moderno então havia adequado para a sua actividade, tendo em conta as restrições quanto à falta de electricidade. Actividade essa, que era, como já referimos, caldeiraria e serralharia. Ali se fabricavam alambiques completos, a partir de chapas lisas de cobre. Dava gosto olhar para esses trabalhos quando prontos para entrega aos clientes. Engenhos(noras) completos eram também ali fabricados. Para além de portões de ferro e de um modo geral um pouco de tudo o que uma pequena serralharia pode produzir. Apenas para ilustrar as qualidades de diversificação deste senhor, lembro que o candeeiro, em ferro martelado, instalado na sala-mor do Salão Paroquial da nossa freguesia, foi executado, única e exclusivamente, pelas mãos deste artista. O edifício onde essa serralharia e caldeiraria existia ainda lá permanece, com restos do seu equipamento, pois a oficina cessou a sua actividade quando o mestre adoeceu e pouco depois veio a falecer.             

        Das duas sapatarias, comecemos pela do“Snhô Tónho Cancela sapatêro”. Situava-se na divisão da frente da sua casa de habitação. Ou seja, ocupava um dos quartos da frente. Aquele do lado da Fonte, e que tinha a janela sempre aberta quando o mestre estava a trabalhar.   Ao tempo a sua casa era a primeira do lado direito de quem sobe o Cabeço. Permanecendo intacta, essa casa é hoje a segunda, pois cedeu a primazia à da sua neta Anabela. Pessoa de grande afabilidade, o “Snhô Tónho Cancela”, sempre que dava conta de alguém que subia ou descia o  Cabeço, não se coibia de cumprimentar  a pessoa que passasse, de uma forma que a todos agradava. Raramente abandonava o seu posto de trabalho que consistia, como é lógico, em fabricar e reparar sapatos, botas e sandálias. Recorde-se que nesse tempo não havia máquinas de fabricar calçado. Também aqui, quando faleceu o mestre acabou a oficina..

     A outra sapataria, era a do meu pai. O “Tónho da Môça sapatêro”. Situada num barracão pegado à nossa habitação, ali chegaram a trabalhar simultâneamente, além do proprietário, - o meu pai - dois  operários profissionais e um aprendiz. Um dos  profissionais  era das Moreiras Pequenas e o outro das Moreiras Grandes. Lamento haver esquecido os seus nomes. Excepto o do aprendiz que era o nosso amigo e vizinho José Violante. (“Zé Galhofa”, com todo o respeito). O senhor das M.Grandes, recordo-o mais pelo tipo de merendas de que se alimentava, as quais eram por norma recheadas de óptimo chouriço magro assado, que ele fazia questão em que eu o ajudasse a consumi-lo. Ao que eu acedia de bom grado. Esta “cena” repetia-se quase todos os dias, tendo durado dos meus seis aos oito anos de idade. Julgo que este senhor contribuiu largamente para desenvolver o meu gosto por aquele tipo de conduto. Acerca do profissional das M.Pequenas, ùnicamente recordo tratar-se de uma pessoa de poucas falas, bastante alta e magra, contrariamente ao homem das M.Grandes que era baixo e gordo e gostava de brincar com a “miudagem”. Puro acaso, e porque o mundo é realmente pequeno, vim a encontrar esse nosso conterrâneo numa localidade de nome Machava, a cerca de quinze quilómetros de Lourenço Marques (hoje Maputo), em 1970. Voltando à sapataria, lembro-me da minha mãe dizer para o meu pai : ‘Oh Tóino (era assim que ela o chamava, não Tónho) tu calças os outros e ficas descalço!...’, lamentando-se “por o negócio não dar”. E não só não deu, como ainda aconteceu o pior. Meu pai adoeceu com tuberculose, do tipo galopante, tendo vindo a falecer, em Março de 1950, três dias antes de fazer 35 anos de idade, poucos meses depois de diagnosticada aquela terrível doença que na época ceifava vidas aos milhares. Com a enfermidade e consequente morte do meu pai, a minha mãe encerrou a sapataria.

      Quanto à família dedicada à construção civil, trata-se, nada mais nada menos, da família do “Snhô ‘D’lino Conde”. Homem recto, disciplinado, daqueles de “antes quebrar que torcer”, pôs todos os filhos, à excepção da Celeste e do mais novo – o ‘Manel’, que era então uma criança – a trabalhar junto de si. Muitas casas, em Assentis e arredoras foram construídas por esta “gesta” de dedicados profissionais. Começando pelo pai, passando pelos filhos ( O Zé, o Abel, O Henrique e o ‘Tónho’), por alguns dos  netos e  terminando por alguns dos bisnetos, os quais ainda hoje ganham o pão exercendo a actividade que lhes vem do seu bisavô.

     Esta característica industrial da Fonte Velha, veio a “ressuscitar” um pouco, quando, nos anos 70, o Tonito fundou uma oficina de mecânica para reparações gerais de carros, incluindo bate-chapas e pintura. Depois das secções de mecânica e de bate-chapas haverem, há poucos anos, mudado de ares para a Serra, na Fonte Velha ficou apenas a parte relacionada com a pintura de automóveis. Que continua activa. E bem! A nossa terra precisa de mais “Tonitos”!... Para outras actividades, claro. Daqui faço um apelo aos jovens. Dentro do possível, procurem fixar-se por aí. Há sempre uma ou outra oportunidade para se singrar, se a procurarmos e a agarrarmos no momento exacto. Com   honestidade, trabalho e dedicação, pode tardar a recompensa, mas ela virá. Pela certa. Acreditem.
     Também, muito recentemente, a oficina/fábrica de móveis pertença dos irmãos Pouseiro Dias (o António e o Rui), se transferiu para as Moreiras Grandes, depois de vários anos de laboração no Cabeço, melhor na Nora. Foi pena que assim acontecesse, mas como atrás dissémos, nada permanece imutável.

     Muito mais, por certo, haveria a dizer relacionado com o tema. E que eu desconheço. Há tantos... tantos... anos que saí da minha/nossa querida terra !... Seria, pois, interessante que as pessoas que conheçam outros factos, os não deixassem perder.
      Para terminar, esclareço que é com todo o respeito que grafo os nomes das pessoas tal como se pronunciam. A intenção não é senão a de, por essa forma, tornar ainda mais amistosa a referência à pessoa visada. É tudo. Votos de progresso para o nosso burgo e de bem-estar para todo o seu povo. O aí residente e o ausente.

P.S.  O seu a seu dono.
Já depois desta crónica terminada, fui informado, pelo nosso amigo Henrique Conde, de que o seu primo  Sr.Joaquim de Sousa Tomás (desde pequeno mais conhecido por ‘Xkim da Rita’), antes da sua saída para Angola, também fabricava artigos de marcenaria, aí na Fonte Velha. Em improvisada oficina no rés-do-chão da casa dos seus pais, casa essa que é hoje da Sra. Celeste Cancela.

Joanesburgo, 2 de Maio de 2007

Abílio Conde Vieira
 
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