CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
Banal? não, é simplesmente Natal!
 
         Mês de Dezembro, mês do Natal, mas como escrever uma crónica de Natal sem repetir as banalidades do costume? É possível dizer algo mais sobre o Natal? Duvido, e o que é que se pode dizer contra o Natal? Nada. Tudo o que escrever será consensual. O Natal é como que um regime de ditadura da bondade, alegremente aceite por todos e que ninguém gosta de contestar.

         É evidente que há pessoas mais cépticas ao Natal. No entanto, não se critica o Natal, mas sim aquilo em que ele próprio se tornou. A sua banalização.

          A comunhão de certos valores está associada à banalização das palavras que os exprimem: paz, fraternidade, amor, solidariedade, família, são palavras muito inflacionadas nesta altura do ano. Todos as usam desenfreadamente e com isso fazem-nas perder o seu real valor. Mas a banalização não fica por aqui e estende-se aos gestos: os SMS enviados em catadupa ou os cartões de boas festas distribuídos pelas listas de contactos das empresas ou ainda as imagens e a música ( época de eleição para o George Michael ). Hoje, com a ajuda das lojas chinesas, até os presentes se banalizaram. Todos merecem presentes, mesmo aqueles que mal conhecemos. Por um lado, isso até promove um dos valores do Natal: olharmos para além de nós e dos nossos. Mas ao dar-mos a todos também deixamos de distinguir uns dos outros e com isso perde-se a mensagem particular que queríamos dar a alguém: a de que são especiais para nós.

         Muitos temem que o espírito de Natal não sobreviva à sua banalização. O paradoxo é que ela mesma também serve para manter o espírito natalício. Até a explosão consumista promove a solidariedade e a fraternidade. Alguns economistas realçam o impacto positivo do aumento do consumo nesta altura do ano (estima-se que aproximadamente um quinto do consumo anual concentra-se nesta época), aumentando o investimento e fazendo crescer o emprego. Eis um belo presente para a tão debilitada economia portuguesa.

          A verdade é que se trata de um crescimento largamente artificial e puramente sazonal. Esses economistas dedicaram-se a estudar o desperdício de eficiência inerente aos presentes de Natal. A tese é simples: na maior parte dos casos as pessoas não estariam dispostas a pagar para ter o presente que lhes é oferecido ao preço pelo qual foi comprado, logo há uma perda de eficiência pois esse dinheiro poderia ser utilizado com mais utilidade para as pessoas noutras coisas. Se seguíssemos à letra esta tese o melhor seria passarmos todos a oferecer cheques de presente…

         Seja como for, e por muito anti-intuitivo que pareça, consumir é sempre um instrumento de solidariedade e ainda mais se for para distribuir pelos outros. O que nos irrita é a percepção que ao usarmos e abusarmos do Natal desvalorizamos a sua importância: aquilo que se vulgariza deixa de parecer tão especial aos nossos olhos e aos dos outros.

         No Natal não deixamos de discordar, ser diferentes ou ter gostos opostos. O que acontece é que no Natal todos aceitamos suspender a nossa realidade por um momento e com ela os nossos preconceitos e juízos críticos. Partilhamos uma mesma emoção que se transforma em algo sublime. Neste contexto, e enquanto recordarmos isto, o banal não deixa de ser especial, por isso digo: Feliz Natal a todos!


José Perdigão
2006-12-20
 
 
 
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