CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
O Cão "Raivoso"
     Pairava sobre a aldeia de Assentis uma terrível ameaça! Constava-se que vagueava pelas ruas um corpulento cão que mais parecia um lobo. Dizia-se que tinha a língua ao dependuro e espumava abundantemente. Não havia relato de qualquer ataque a pessoas ou animais mas, segundo os “entendidos”, o bicho estava raivoso e era urgente eliminá-lo.

     No dia seguinte organizou-se a batida à “fera”. Juntaram-se alguns homens munidos de varapaus e duas ou três caçadeiras e lá foram em busca do tão indesejável animal. Procurou-se por toda a aldeia mas nem rasto da “besta”. Pelo sim pelo não as pessoas evitavam sair à rua e retinham os seus animais em casa.

     Infrutífera que foi a busca na aldeia, decidiu-se dividir o pessoal em pequenos grupos e partir em várias direcções para bater os arredores. Ao final da tarde, chegaram notícias. O perseguido havia sido localizado e abatido com dois tiros de caçadeira quando em fuga desesperada subia uma ribanceira perto dos Moinhos da Pena. Assentis estava “salva” mas, para que não restassem dúvidas, foi dada ordem “superior” para que todos os canídeos da terra fossem abatidos, pois existia o risco de algum ter sido contagiado.

     Não sei quem foi o mandante da chacina. Se algum representante do Delegado de Saúde, alguém da Junta de Freguesia ou o médico da aldeia. Também não sei se foi feito algum exame ao cadáver para confirmar ou não a tese da raiva. Sei que passados tantos anos sobre este episódio, continuo com algumas dúvidas acerca do mesmo. Estaria o animal de facto raivoso ou simplesmente perdido, esfomeado e sedento? O animal abatido seria o mesmo que foi visto na aldeia (se é que alguma vez foi visto) ou qualquer outro a fugir assustado com tanto alarido? A ordem de abate geral dos cães foi integralmente cumprida? Não sei. Sei que para meu desespero, em minha casa a ordem foi cumprida. A minha cadelita foi abatida de forma tão bárbara que me abstenho de descrevê-la . Sei também que terei sido muito provavelmente um dos “contagiados” pois ainda hoje tenho uma tremenda raiva para com o desconhecido “juiz” que, se calhar precipitadamente, sentenciou a pena de morte. Por outro lado, nutro pelo “carrasco” uma solidária condescendência pois sei que tal tarefa, executada contra a sua vontade, o marcou tanto a ele como a mim.

Aqui está uma história que gostaria de não ter contado.


Alfredo de Sousa Tomás
2006-05-02
 
 
 
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