CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
Assentis 2050
 
     Estávamos no dia 5 de Junho de 2050, um domingo soalheiro exageradamente quente para a altura do ano (a temperatura média tinha subido 4 graus nos últimos 50 anos). Era dia de eleições para a Presidência da Confederação dos Estados Europeus. Tinha lido as notícias nos diários “on-line” e aproveitado para exercer o meu direito de voto, claro está, electronicamente. Estava na altura com quase 81 anos e tinha me reformado ainda nem à 10, considerava-me uma pessoa com bastante vida para idade, no entanto não dispensei a ajuda da velha bengala, oferecida pelo meu tio-avô e que era comemorativa dos 200 anos da restauração da independência de Portugal para subir ao alto da Eira na “Nora”, propriedade que eu e a minha irmã teimamos em manter. Deixei a minha esposa e companheira de à 50 anos feitos em Março último a ver um programa qualquer interactivo na Televisão Digital. Dali avistava um vasto casario cuidado, envolvido por uma tranquilidade reconfortante. A agora Vila gozava de uma calma muito diferente de outros domingos, o entoar do motor dos automóveis hoje movidos a hidrogénio ajudava por certo, a todo este cenário.

     Sentei-me numa velha pedra que já tinha servido de cunhal a uma qualquer construção, fechei os olhos e comecei uma visita pela Vila.
Vindo pelo lado poente, logo saltou à vista que as estradas estavam mais largas e devidamente marcadas, a sinalização vertical era também uma evidência, sendo que as placas informativas eram luminosas e todas tinha o brasão da terra. Nesse primeiro cruzamento as placas indicavam a existência do Complexo Desportivo da Pinheira que incluía o Campo de Jogos e o Circuito de Manutenção.

     Tomei a direcção do centro e logo encontrei um jardim muito bem cuidado no Largo da Fonte Velha, os velhos choupos tinham desaparecido por causa do alargamento da estrada, mas em compensação, o que em tempos foi um projecto de espaço verde, hoje era a realidade disso mesmo e nele sobressaiam as tulipas e as “strelitzias”.

     Continuei e cheguei ao Largo do Parque Infantil, a rua que vai do Cruzeiro ao Mini – Centro Comercial à muito que estava encerrada ao trânsito, por esse mesmo motivo os dois largos estavam agora muito próximos. No Largo do “ Manel da Raquel” havia agora uma zona destinada a actividades lúdicas e recreativas, com um palco e um pequeno anfiteatro que sendo telescópico permitia facilmente ver aumentada a sua capacidade. Tinham sido plantadas uma série de árvores que proporcionavam refrescantes sombras, foram por isso colocados alguns bancos de jardim para aproveitar esse estimulante efeito. Mais em baixo o parque infantil estava mais pequeno e com um pavimento esponjoso, junto a ele estava uma pequena pista de skate e uma outra pequena zona para desportos radicais. Onde outrora fora o jogo de chinquilho estava agora uma esplanada e um pequeno snack-bar de nome Mc’Assentis, penso eu.

     Subi mais um pouco e passei pela sede do CRCSA Assentis, o edifício era todo envidraçado, o vidro conferia-lhe um ar alegre e proporcionava um espaço interior muito acolhedor. No vidro por cima da entrada passava informação em painel electrónico com a seguinte mensagem: “ Dia 12 de Junho Festa dos Campeões Nacionais de Iniciados – Época de 2049-2050”, congratulei-me por isso também, pois um dos meus netos era treinador dessa fabulosa equipa que ganhou na final, 3-2 ao SB da 2ª Circular.

     Andei um pouco mais e vi-me no Largo, no velho lagar estava afixada uma placa prateada com a indicação: “ Restaurante – Museu O Lagar “, afinal algum aproveitamento tinha sido dado a tão nobre arte. Numa parede contígua ao Lagar estava uma seta apontando para o lado da Serrada, indicava que era esse o caminho para encontrarmos a “Pista de Desportos Motorizados”. Tenho de referir que por todos os locais por onde passei via-se uma limpeza extrema, e os caixotes do lixo tinham dado lugar a centros de recolha selectiva de lixo subterrâneos, sendo que todos eles estavam decorados com motivos alusivos à terra.

     Cheguei depois ao Cruzeiro, estava muito bem preservado e com uma vida nova pois alguém lhe tinha posto junto à base 3 enormes holofotes apontando ao céu, assim, à noite a luz conferia-lhe um sentimento de vida que o cinzento dos seus materiais teimava em ocultar. Como já disse, daqui até ao Parque Infantil estava a rua fechada ao trânsito ( excepto moradores ), o que não disse foi que no início dessa rua estava um Monumento aos Filhos da Terra. Nele estavam inscritos os nomes de muitos dos nossos conterrâneos perpetuados na pedra. A ordem de inscrição em nada interessou o importante mesmo foi constar, para que todos se lembrem da importância que todos tivemos e continuamos a ter no preservar da nossa entidade.

     Continuei a minha caminhada até à “velha escola”, fruto da abertura à perto de 40 anos da “Escola do Norte”, a nossa escola tinha dado lugar a um Centro de Aprendizagem Interactivo que incluía uma Mediateca e uma Biblioteca, lá também era possível a utilização de computadores por quem não os possuía em casa, sendo que na altura esse era um número muito reduzido de pessoas. Mas, como há tradições seculares que teimosamente perduram, era ainda nesse local que continuava instalada a Mesa de Voto Electrónico.

     Na direcção das Moreiras Grandes estava a indicação para o Edifício do “Agrupamento das Aldeias de Assentis” anterior Junta de Freguesia, havia também a indicação para o Centro de Acolhimento e Apoio a Idosos que já tinha sido ampliado mais 2 vezes depois de 2007. Estava ainda a informação de que era nesse mesmo sentido o Parque Industrial e Empresarial Norte, um pouco mais além que as Moreiras Grandes.

     Na direcção das Beselgas havia a indicação da existência de um aterro sanitário, lembro-me de ter havido grandes discussões face à sua localização, tudo por causa da distância mínima exigida aos cursos de água, mas provavelmente deve ter sido mais alguma questão política que enredou todo esse processo.

     Por esta altura a nossa Vila tinha saneamento básico, uma farmácia, um centro de saúde, um balcão do Banco dos Muitos Créditos (BMC), uma ambulância e uma viatura de Combate a Incêndios de intervenção rápida facultados pelos Bombeiros Nacionais, a evolução constante proporcionou-lhe ainda outros equipamentos que agora não me ocorrem mas, acima de tudo continuava a contar com pessoas que com o passar dos tempos não perderam a sua hospitalidade, o seu carinho e a sua firme vontade de progresso.

      Bem, aqui terminei esta “volta” rápida por uma Vila que é “hoje” aquilo que muitos gostavam que o fosse à meio século atrás. Resta-me descer da velha Eira e esperar que daqui a quarenta e poucos anos cá estejamos de sã e firma saúde para aferir esta nova realidade ou pelo menos que os nossos descendentes a possam constatar.

Um abraço a todos e até à próxima.

 

José Manuel Perdigão
2006-04-18
 
 
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