CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
A Bola de Catechu
 
     Lá estava ela, tentadora, pendurada por detrás do balcão da mercearia que ficava junto à igreja dos Casais de Igreja. Esvaziada e flácida com o pipo da câmara de ar a espreitar para fora do couro amarelo vivo. À sua volta outros brindes de menor importância: Um pião de madeira muito branca e macia (talvez figueira), um pente de tartaruga, uma gaita de beiços só com meia dúzia de furos, um par de suspensórios, etc. etc.

     Para conseguir a tão desejada Bola de Catechu, era preciso completar a caderneta de figurinhas de jogadores de futebol que vinham a embrulhar os rebuçados que o Senhor José (creio que era esse o nome) vendia a cinco um tostão. Era uma guerra aberta entre os rapazes de Assentis e os de Casais de Igreja para ver quem primeiro completava a respectiva caderneta. A certa altura, quando já só nos faltava um jogador e para nosso desespero as figuras repetidas eram uma constante, um dos nossos (de Assentis) , ao trocar o tostãozinho pelos cinco rebuçados, disse: Oh Sôr Zé!... meta a mão nos cantos do fundo da lata e tire os que lá estão! O Senhor José assim fez. Desembrulhados com incontida ansiedade os três primeiros rebuçados nada de relevante aconteceu. Ao quarto rebuçado... lá estava ele!!! O Domingos Patalino do Elvas! A bola era nossa!

     Para comemorar o acontecimento e estrear a “bola de verdade”, organizou-se um jogo entre a rapaziada lá da terra. Para tal decidiu-se construir um “estádio de raiz”, pelo que foi preciso andar de sachola em punho a roçar mato para se improvisar um campo de futebol à altura de tal acontecimento. O jogo ficou marcado para um Sábado à tarde. Na manhã do dia do jogo procedeu-se ao ritual do enchimento da bola. Verificou-se atentamente a câmara de ar para confirmar que não teria qualquer furo e introduzimos a dita câmara na bola de couro pelo orifício existente para o efeito. Depois foi só colocar, com alguma dificuldade aliás, o “record” da bomba de bicicleta no pipo da câmara de ar e dar à bomba. De quando em quando apertava-se a bola com o polegar para testar a pressão. Quando se entendeu que a pressão estava boa, dobrou-se o pipo para o ar não sair e atou-se com um cordel. Empurrou-se à força do dedo polegar para dentro do couro e cobriu-se com uma rodela de cabedal também enfiada para dentro do couro deixando assim protegida a câmara de ar.


     Do jogo da estreia da bola quase nada me lembro. Apenas do episódio que é a razão desta crónica. Durante quase toda a primeira (e única) parte, o jogo decorreu “normalmente”, o que quer dizer que a novíssima e amarelinha bola de couro com câmara de catechu aguentava estoicamente as biqueiradas a que era sujeita, sem que ninguém tivesse ainda alcançado a suprema glória de ser o primeiro a introduzi-la entre as canas que formavam as balizas. A estreante estava a ser tão mal tratada que pouco antes do intervalo, deu-se o (in)esperado. A redondinha não aguentou um pontapé mais violento e rebentou pelas costuras deixando ao léu a rosada “bexiga”, qual porco após a matança. Oh vida efémera!... Para desespero de jogadores e público, que era em número considerável, o árbitro deu por concluído o encontro pois não havia no banco bola de reserva. Feito um exame minucioso ao que restava da bola concluiu-se que era falsa pois o couro mais parecia papelão.


     É esta a história de uma pretensa bola de futebol que não chegou a sê-lo porque nunca foi golo, a suprema essência do futebol. Morreu “virgem”.

 

Alfredo de Sousa Tomás
2006-04-11
 
 
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