CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
A Cobra
 
     No que toca a temas como equilíbrio ecológico, conservação da natureza ou preservação das espécies, a juventude de há cinquenta anos não tinha, nem de perto nem de longe, a informação que grande parte dos jovens de hoje já possui. O meu irmão Manel, rapazola famoso pelas suas diabruras, não só não fugia à regra como era exímio cumpridor da mesma. Para ele, cobras e lagartos eram bichos e os bichos eliminavam-se. Era menino para desfazer um muro de pedra só para ter o prazer de apanhar cobra ou lagarto que lá se escondesse.

     Pois era isso mesmo que estava a acontecer naquela soalheira tarde de verão. O Manel acabara de ver enfiar-se por um buraco no muro, uma cobra com mais de um metro e era preciso deitar mãos à obra, que é como quem diz, desfazer a obra. Depois de retirados vários calhaus e de alguns arranhões nas mãos, lá conseguiu entalar definitivamente o réptil. Pegou-lhe pela ponta do rabo e ficou a admirar, qual predador, o belo exemplar capturado. Depois da satisfação do “dever cumprido”, foi invadido por uma estranha tristeza. Não porque o roessem os remorsos mas porque achava ser uma pena tão belo exemplar não ter outra utilidade. Havia que engendrar qualquer ideia. A coisa não podia ficar por ali. Se bem o pensou melhor (ou pior) o fez.

     A Ti Josefina “Cartuxa”, que como já disse em crónica anterior tinha pavor a cobras, iria ser a segunda vítima daquela tarde. Ele sabia que a Ti “Cartuxa” tinha por hábito quando saia de casa, deixar a chave na gateira da porta. Dirigiu-se para lá e sem mais delongas colocou a cabeça do réptil já morto no buraco, deixando bem visível o resto do corpo da parte de fora. Agora era só esperar pacientemente. Quando a Ti “Cartuxa” de regresso a casa se abaixou para retirar a chave e deparou com aquele “monstro”, desatou a fugir pela ladeira abaixo em direcção à Fonte Velha. Os gritos eram tão aflitivos que o Manel, preocupado, achou que devia tentar acalmá-la e seguiu atrás dela gritando: Oh Tiaaaaaaaaa! Está mooooorta!! Está mooooorta! Pior a emenda que o soneto! O povo do lugar ao ouvir os gritos aflitivos da Tia e do Manel correu atrás deles em pânico. Da soleira de uma porta uma velha pergunta angustiada: Ai Jesus! Quem morreu?! Foi alguém da Ti Jacina responde uma moçoila roliça sem abrandar a louca correria. Junto ao lagar da prima Celeste do Lagedo, onde hoje está o “Lagareiro”, a Ti Jacina lá parou completamente exausta. O Manel tinha agora dois problemas para resolver: Acalmar a velhota e explicar àquela gente que NINGUÉM havia morrido, mas tão somente uma inofensiva cobra que teve o azar de estar no local errado à hora errada.
 

Alfredo de Sousa Tomás
2006-03-28
 
 
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