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“SUMO DE AZEITONA”, O DECLINIO DE UMA CULTURA
 
     A oliveira, os seus ramos representam um símbolo da paz e constituiu fonte de inspiração para pintores como Picasso ou Van Gogh, ela se recorta à contraluz na paisagem da nossa terra e a sua história remonta pelo menos ao Paleolítico. O seu néctar, ouro líquido nas palavras de Homero, azeite, do árabe Az + Zait que significa “ sumo de azeitona”. Historicamente o azeite desempenhou um papel importante na economia rural e nos hábitos a ele ligados, é por isso um elemento importantíssimo também no património cultural da nossa terra.

     É notório que ao longo dos tempos a sua importância foi-se reduzindo, por exemplo, em 1942 havia na freguesia, 24 lagares de azeite, hoje em dia só persistem 2 a laborar, mas já em 1971 o seu número era somente de 12. Quanto a mim o problema não foi tanto a falta de modernização dos mesmos, mas sim a falta de tratamento adequado que deveria ter sido dado à cultura olivícola, e que na realidade não ocorreu, sendo ainda de acrescer a tudo isto, a procura, mais que necessária, por parte das pessoas de algo que lhe conferisse uma profissão, sendo que houve um abandono real e efectivo da agricultura minifundiária ( sem rentabilidade económica ) e ainda da cultura olivícola.

     A verdade é que a ainda hoje a apanha da azeitona é um “ culto “ que prevalece, claro está, com diferenças notórias, é que se antigamente esta actividade sazonal era exercida a título principal por muita gente, hoje as pessoas conjugam as suas férias, para que possam andar, pelo menos uma semana, na apanha da azeitona, o que lhe permitirá ter esse néctar dourado como alimento nas suas refeições no próximo ano. Outra diferença evidente, encontra-se no acompanhamento do processo de obtenção de tão precioso líquido. Enquanto que em tempos idos, não sendo necessário recuar muitos anos, a azáfama do lagar era acompanhada pelos donos da azeitona. Hoje em dia, limitamo-nos a entregar a azeitona e ir buscar o azeite no dia e hora marcada, tudo isto em nome das leis comunitárias e ambientais que neste capítulo os industriais que teimosamente ainda resistem, foram obrigados a seguir. Sendo certo pelo menos duas coisas com esta modernização, primeira, que a qualidade do azeite não subiu de sobremaneira, segunda, que a maior parte das vezes, não se trás o azeite que as nossas azeitonas produziram, muito embora os lagareiros ainda teimem em querer fazer ver que assim não é. Por outro lado, a ida ao lagar com as castanhas para assar no borralho da caldeira, o ver correr o azeite nas ceras da prensa, e a ajuda ao desencerar, foi se esvaindo, com tudo isso foi-se perdendo também a confraternização. Mas isto meus amigos, é o preço que se paga pelo avanço do tempo, e pela busca constante de evolução: a modernização, a defesa do ambiente, o controle higiénico/sanitário obrigam à morte anunciada desta cultura secular, não tanto na actividade que essa vai prevalecendo, mas sim no seu aspecto cultural, em que é evidente a desumanização de que foi começando a padecer, não havendo ponto de retrocesso.

     Para tentar inverter um pouco esta tendência, lanço aqui uma ideia que ao que sei já foi aventada em 2002 a nível da sede do concelho mas que penso, não foi devidamente concretizada, com a criação do “Museu do Azeite”. Daí que, se houver vontade, poder-se ia recriar a uma escala mais reduzida, um lagar tradicional, que funcionaria como mostra cultural de algo tão importante que foi para a nossa terra. Ao invés da maquinaria ainda existente ser levada para a fundição, haja uma mão que veja nela uma forma de dar a conhecer uma actividade que tem tanto de importante como de digna, quer em termos económicos, quer como veículo da sã confraternização entre as nossas gentes não fosse o azeite um alimento de reconhecido valor na prevenção das doenças cardiovasculares, portanto amigo do coração.
Um abraço a todos, e até à próxima crónica.

 

José Manuel Perdigão
2006-03-20
 
 
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