CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
A Tourada
 
     Pela rua abaixo marchavam três saltimbancos, seguidos por um bando de cachopos em alvoroço onde eu estava incluído. Um fazia rufar um tambor, outro tirava a custo notas estridentes de um velho clarim e o terceiro anunciava a plenos pulmões o “grandioso espectáculo taurino a realizar nessa noite após a ceia”. O recinto escolhido para o evento, fora o do jogo da bola de pau que ficava paredes meias com a taberna existente no Largo de Santo António, onde hoje está o Supermercado do Manel Tomás.

     Pela noitinha, comidas à pressa as papas de farinha de milho com feijões e couves, lá fui pela mão do meu Pai ao encontro do tão ansiado espectáculo. Seriam umas nove horas e estava uma noite que mais parecia dia pois o luar de Agosto quis associar-se à festa.

     Chegados ao recinto, meu pai pegou em mim e sentou-me em cima de uma pilha de sacas de milho que estavam arrimadas a uma parede. Fiquei com uma visão privilegiada da “arena” . Encostados às paredes, os “aficionados” aguardavam impacientemente o início da “corrida”. Finalmente entrou o “matador” com o seu coçado “traje de luces” (mais remendos que “luces”) e saudou a assistência. Logo a seguir entra de rompante na “arena” o corpulento “toiro” que mais não era do que os outros dois saltimbancos agachados e cobertos por um pano negro. O da frente segurava um vistoso e autêntico par de cornos, como convém num toiro que se preze. No extremo oposto, o outro saltimbanco trazia pendurado um farfalhudo apêndice a que podemos chamar rabo. A “lide” iniciou-se com alguns passes de capote, rematados por um “farol” primorosamente executado de joelhos no chão. Um aficionado mais entusiasmado grita: Olé Manolete!!... estabelecendo uma exagerada comparação com o famoso matador espanhol.

     Tudo estava a correr às mil maravilhas até que, acabadinho de chegar da taberna ao lado onde certamente não estivera a beber água, avança cambaleando em direcção ao “toiro”, um personagem que não estava no programa. Sem cerimónias salta para cima deste numa tentativa de o cavalgar. O “parte de trás” surpreendido com a carga não prevista, arreou e estatelou-se no chão, enquanto o “parte da frente” alheio ao que se passava, continuava as suas investidas arrastando o trapo negro, qual Minotauro com cabeça de toiro e corpo de nada. Quando se deu conta da triste figura que estava a fazer, o “parte da frente” despiu a “cornadura” e desatou à tapona e ao sopapo ao artista não convidado e a quem mais se lhe chegasse. Gerou-se enorme burburinho e como quase sempre acontece nestas situações, quem dá acaba sempre por levar também, o “parte da frente” foi ao tapete depois de valente traulitada que apanhou, não se sabe vinda de onde.

     Acabava assim a primeira e se calhar única tourada em Assentis. Não se cortaram rabos nem orelhas, o inteligente não mandou tocar a música nem o toureiro saiu pela porta grande e foi levado em ombros até ao hotel como acontece nas grandes “faenas”. Em vez disso, toda a gente saiu pela porta pequena que dava acesso à taberna e lá se beberam mais uns copos prá sossega. Até as duas metades do “toiro” molharam a goela.
 

Alfredo de Sousa Tomás
2006-03-07
 
 
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