CRÓNICAS DE ASSENTIS
 
Assentis - Crónicas
Relembrando o passado
     Decorria o ano de 1950 e estava uma manhã quente. Não me lembro bem mas estaríamos provavelmente no Outono apesar do tempo quente. Minha mãe havia recebido semanas antes a tão desejada “carta de chamada” que nos permitia viajar para Angola e juntarmo-nos ao nosso pai. A “carta de chamada” era um documento autenticado pelas autoridades portuguesas atestando que determinada pessoa, neste caso o meu pai, tinha a sua vida organizada na Colónia de Angola e estava em condições de poder chamar para junto de si a família , podendo proporcionar-lhe meios de subsistência. De posse do documento milagroso, providenciara-se a marcação das passagens para o Paquete Império da Companhia Colonial de Navegação que sairia de Lisboa daí a poucos dias.
     Reinava em mim um nervosismo e uma ansiedade próprios de uma criança de oito anos prestes a partir para o desconhecido e deixar para trás uma curta mas já marcante vivência com familiares e amigos mais chegados. Fizeram-se as indispensáveis despedidas em ocasiões como esta . Lembro-me particularmente da Tia Josefina “Cartuxa” que tinha pavor a cobras, me ter dito à despedida : “Se por lá vires uma cobra muito grande, lembra-te da Tia”. Aconteceu alguns anos mais tarde, durante uma caçada a algumas dezenas de quilómetros a Norte de Luanda o “Jeep” em que seguíamos ter passado por cima de uma gibóia com cerca de cinco metros. Aí lembrei-me da Ti Jacina “Cartuxa”.
     Feitas as despedidas fatalmente acompanhadas de prantos e desejos de boa viagem lá seguimos, eu, minha mãe Rita e minhas irmãs Alzira e Fátima, para a estação de Paialvo. Quando a carroça puxada por uma mula que nos transportava a nós e aos parcos haveres passou junto da Escola Primária, parou para a última das despedidas. Eu havia acabado a primeira classe e a Senhora Professora (ah como eu gostaria de me lembrar do nome dela) entendeu dar-me uma carta de apresentação para os professores que viesse a encontrar em África. Entrei na sala e aí sim, dei-me verdadeiramente conta do que estava a acontecer. Iria deixar de contar com todos aqueles amigos (ah como gostaria de me lembrar dos nomes deles). Não haveria mais jogos de pião, banhos nus nos malagueiros, não haveria mais invasões das vinhas alheias à procura do “rabisco” depois das vindimas. Caí em mim e emocionei-me. Só vim a sentir tamanha emoção mas no sentido inverso quando doze anos mais tarde voltei a Portugal para cumprir o Serviço Militar na Força Aérea. Fui à Assentis e plantei-me defronte da Escolinha relembrando a triste viagem que anos antes havia feito de carroça do Lugar do Cabeço para a Estação de Paialvo.

Alfredo de Sousa Tomás
2006-02-06
 
 
 
Voltar à Lista de Crónicas