APONTAMENTOS DE ASSENTIS
 
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JANTAR DE CONFRATERNIZAÇÃO

   Cumprindo a promessa feita no “nosso” Livro de Visitas do dia 4 do corrente, aqui estamos a falar sobre uma ocorrência vivida  nas  nossas curtas, mas muito reconfortantes, férias passadas em Assentis, de 13 a 28 de Setembro último.            Sem esquecer o passeio a Alvalade -  em explêndida companhia !..., refira-se -, para o jogo Sporting-Manchester !... - (perdoe-se-me este aparte desportivo). Essa ocorrência, foi a realização de um jantar que ficará na memória de todos os que nele tomaram parte.

   Quem nunca deixou a sua terra natal para ir viver longo tempo fora dela, no estrangeiro, dificilmente compreenderá o sentido lato da palavra saudade na sua plenitude. Sim. É que sofre-se, realmente, quando se ama algo que está longe. Neste caso a terra que adoramos. O lugar onde demos os primeiros passos e onde crescemos. Algo que faz parte de nós próprios, quer se queira, quer não.

   Vem isto a propósito de um memorável acontecimento – memorável, sem dúvida, para todos os que tomaram parte nele -  que ocorreu, em Assentis, no dia 22 de Setembro e que adiante se descreve.

   O signatário destas linhas, da sua Assentis abalou aos 18 anos de idade, com destino a Lourenço Marques. A ex-Pérola do Índico, capital da então Província de Moçambique. Na bagagem de esperança  de um jovem com aquela idade, sobressaíam, como objectivo, dois desejos primordiais: Um, o de poder melhorar as suas condições económicas, para assim, conseguir ajudar a sua mãe e o seu irmão. O outro, e não menos importante para ele, o de poder estudar. O que, até então, tinha estado fora do seu alcance. Recorde-se que o regime ditatorial vigente na época, primava por favorecer os seus capangas, os ricos seus apaniguados e a esmagadora maioria da classe eclesiástica, tudo em detrimento do povo humilde e pobre.

   Calcorreou Moçambique durante cerca de 15 anos. A trabalhar durante o dia e a estudar à noite. Ali cumpriu o serviço militar obrigatório. Numa terra que amou e o marcou imenso. Pelo país de Boers, Zulus e outros, deambula há mais de 32. Numa nação que o acolheu – em finais de 1974 - como refugiado. E perante a qual tem uma dívida de gratidão. Sempre a saudade da sua aldeia, dos amigos - especialmente os de infância e de escola - e das suas gentes, lhe corroeu a alma. Confessa e reconhece que a ela se deveria ter ligado muito mais, durante os largos anos da sua ausência. Tal não foi, porém, fácil. E aqui, falhou. Quer agora, qual filho pródigo, na terceira fase da sua vida, e durante os anos que Deus lhe permitir, reparar essa sua falta, naquilo que ainda fôr possível. E foi assim, com esse objectivo em mente, e com a ajuda de alguns amigos, que se organizou um memorável jantar de confraternização n’ “O LAGAREIRO”. Um encontro que reuniu 65 pessoas ! Pessoas essas que, para além de Assentis, vieram das Moreiras Pequenas, de Bezelga, dos Casais de Igreja, do Alvorão, da Charruada, do Casal da Pena, do Botequim, dos Casais Castelos, dos Soudos, de Lisboa, do Alentejo e da África do Sul.

   A ideia inicial era juntar num almoço apenas ex-alunos do Dr. Pena dos Reis. Para, ao mesmo tempo que se homenageasse aquele nosso ex-professor, podermos confraternizar. E assim, graças ao empenho do Cândido Cabeleira, foi possível contactar um elevado número de ex-alunos da Escola de Assentis dos anos 40 e 50. A vasta maioria acolheu a iniciativa com agrado, e desses, a maior parte marcou presença no jantar, acompanhada das respectivas esposas. Ao iniciarmos os contactos, não imaginávamos, poder juntar tanta gente. Ainda bem que assim foi.

   Congratulamo-nos, também, com a presença do Presidente da Junta, o nosso amigo José Cavalheiro Conde, que acedeu prontamente ao convite que lhe fizémos.

   Tudo começou por nos concentrarmos, pelas 18.30, em frente do Restaurante. De lá, seguimos em romagem ao Cemitério, para lembrarmos aqueles nossos companheiros que já partiram, casos do “Poeta”, do “Taxita”, do “Pipi”, do João “Bicho”, do João “Marneta”, do Zé Ferreira, do Man’el Violante, do “Samaritano”, do Man’el Saloio, do João Cancela e de outros que involuntariamente esqueçamos.  Devo esclarecer que é com o maior respeito que “trato” alguns dos nossos extintos amigos pela alcunha, ou seja pelo nome por todos mais conhecido. Com a plena certeza de que eles próprios não se sentiriam, com isso, ofendidos se estivessem no nosso meio. Pretendeu-se que essa romagem tivesse a presença do nosso pároco Pe.António José. Tal não foi possível, pois ele encontrava-se ausente, no Norte de Portugal. Também o Sr Pe. Mário não nos pôde acompanhar, por a essa hora ter de celebrar missa em Bezelga. Recorreu-se, assim, a algumas das senhoras presentes para iniciarem a reza de uma pequena oração que  foi acompanhada por todos os que ali se encontravam naquele local de respeito,  por alma de todos esses amigos já falecidos e cujos nomes lá foram recordados com muita saudade.

   Terminada esta pequena cerimónia, o grupo regressou ao “O Lagareiro” , onde o esperava um esmerado jantar. Muito bem servido e de muito boa qualidade. Não é exagero frisar-se. Então o “Bacalhau à Zé do Pipo”...nem se fala !... Estava “de comer e chorar por mais”... Os nossos parabéns ao “Chefe” Zé Tomás e a toda a sua equipa. A começar por quem preparou a comida e a acabar em quem a serviu. Nada a apontar de nagativo. Muito pelo contrário. Resumindo e repetindo, parabéns a todos.

   A satisfação era geral. Sem dúvida. Na cara dos presentes ressaltava uma alegria incontida. De notar que este encontro serviu para que muitos dos presentes se reencontrassem depois de dezenas de anos !... O meu caso -  pese embora a distância de mais de 10 000 Kms !...- não era único !...

   Precedendo o início do jantar, lemos esta nossa pequena alocução:

 

“AMIGOS,

Antes de tudo o mais, lembremos aqueles nossos amigos que já partiram, e que, se fossem vivos, temos a certeza de que estariam também aqui connosco, hoje. Para eles vai a nossa homenagem e o nosso recordar da amizade que existia e que permanece enquanto vivos formos. Se me permitem, eu peço um minuto de silêncio por eles.

Estamos hoje aqui reunidos porquê?

Pura e simplesmente movidos pela força da amizade nascida na infância. Nos tempos de Escola.

Quem vos fala neste momento, daqui partiu há muitos anos. Mas nunca esqueceu a sua terra e os seus amigos. Vivendo e labutando lá longe, teve sempre no seu coração o amor ao seu torrão natal e a lembrança dos amigos que aqui deixou. Daí, ter pensado que talvez não fosse má ideia, juntarmo-nos num almoço ou jantar, nisso envolvendo o Cândido Cabeleira, o António Bento Domingos (Xixarito, com o devido respeito, claro) e o Manuel Dias. Os quatro juntos, avançámos com a ideia. Ela concretizou-se. E aqui estamos. Para celebrarmos a nossa amizade.

Ninguém duvida que a AMIZADE é algo de muito importante na vida humana. E se ela nasce na infância, nos tempos de escola, ela é, de certeza, SÓLIDA, FORTE e INQUEBRÁVEL. Porque é desinteressada. Porque é pura. Sabemos que essa fase da nossa vida – a infância – é, talvez, a mais importante no nosso percurso. É aí que se molda e se adquire a formação e o carácter que nos guiam pela vida fora, até partirmos. Penso que o nosso mundo seria melhor se a sociedade prestasse maior atenção a essa fase da vida humana. Dos nossos 3-4 anos até aos 12-13. Haverá alguém que duvide? Julgo que não.

Mas, caros amigos, não viemos aqui para filosofar (entre aspas) sobre este tema.

Estamos aqui, porque somos todos amigos, porque queremos matar saudades. Porque queremos conviver. Porque queremos recordar velhos e bons tempos. Os nossos tempos de escola. TÃO IMPORTANTES PARA TODOS NÓS. TEMPOS QUE A TODOS MARCARAM PROFUNDAMENTE. No bom sentido, como é evidente. Graças, em primeiro lugar à educação e respeito recebidos dos nossos saudosos pais, e, em segundo lugar, e não menos importante, à formação rígida e disciplinada recebida dos nossos professores. Que então ensinavam e exigiam. Quem não se lembra das “réguadas” (palmatoadas) com que os nossos professores nos “brindavam” de vez em quando? Eu diria mais:
“SÓ SE PERDERAM AS QUE CAÍRAM NO CHÃO”
Tal como eu jamais esqueci, sei que alguns bem se lembram de certa vez, quando saltámos o muro da cerca e fomos às cerejas do Sr. Manuel Seguro, que a poucos metros nos tentavam. Tão lindas, tão sedutoras e tão apetitosas. O pior veio depois, quando a “velhota”, ou uma das filhas, se queixou ao nosso Professor – Dr. Pena dos Reis -. Aí é que foi o bom e o bonito... A sua disciplina espartana foi logo aplicada. Ninguém escapou. Salvo erro, quatro“reguadas” em cada mão, a cada um dos “audaciosos larápios”. Com a respectiva admoestação verbal: “SEUS MALANDROS, NÃO SABEM QUE ISTO NÃO SE FAZ ?!... NÃO LIGAM AO QUE VOS ENSINO. ENVERGONHAM-ME A CARA...etc...etc... A culpa foi das cerejas... Quais irresistíveis Evas tentando Adões !...

Não temos dúvidas de que a satisfação, por estes momentos que estamos a viver, é geral. Que todos sentimos uma alegria, muito especial, por podermos recordar esses tempos, aqui, hoje, juntos. A maioria acompanhada das respectivas “caras-metades”. Pelas suas “Josefinas”, mesmo que não sejamos “Napoleões”.

AMIGOS, chega de conversa. Esperamos que este reencontro, seja o primeiro de muitos mais. Gostaríamos que hoje ficasse aqui decidido, que, anualmente, repetíssemos este acontecimento. Concordam? Se quiserem, vamos a isso. E agora, animados pela satisfação de estarmos juntos, e curada que foi a saudade, vamos ao jantar. Ao “tacho” que, de certeza, “está gostoso”, como dizem os brasileiros. Em nome do grupo organizador, OBRIGADO A TODOS por terem vindo. BOM APETITE.”

 
   De referir que o Sr.Dr. Pena dos Reis, impossibilitado de nos acompanhar, por motivos de saúde de sua esposa, fez questão de nos honrar com um poema por ele escrito propositadamente para ser lido no decurso deste jantar. Facto que deveras nos sensibilizou e que muito agradecemos. Eis esse poema:
 

“Cinquenta e tantos anos já passados
E que nós recordamos neste agora
A matar a saudade que ainda mora
Em corações um pouco já cansados

Amemos esses tempos tão lembrados
Qual jóia que se tem e que se adora
Recordemo-los sempre, muito embora
Nem sempre tenham sido esperançados

Só é pena que os tempos durem pouco
Mas até lá gozemos o que nos resta
Dos sonhos que ficaram de criança

Pois de todos sabido é, ser um louco
Quem não aproveitar o que não presta
Pois o muito esperar também nos cansa.”

 

   Mensagem-lição de um professor. Um verdadeiro PROFESSOR. Com letra grande. OBRIGADO Dr. Pena. Por nos ter ensinado como o fez.

   À recitação deste poema, seguiu-se, por parte do Domingos “Marneta”, a leitura de uma mensagem de sua autoria, também alusiva a este evento, que transcrevemos:

 

“INTRODUÇÃO À MEMÓRIA
ASSENTIS, 22 DE SETEMBRO DE 2007

Com o intuito de preservar na memória, as raízes de alicerces incontornáveis e Tradições Desportivas, Culturais e Sociais, das quais ASSENTIS sempre se tornou pioneira, para orgulho do seu Povo !...

Eis que gerações passadas, presentes e futuras, nunca esquecerão o que de bom e exemplar foi construído nesta Terra, onde os nossos antepassados sempre com altivez e dignidade, se souberam impor em sua defesa, evocando por vezes a célebre frase, (em ASSENTIS, quando ronca um roncam todos), revelando espírito de unidade e entreajuda.

Neste contexto, esta celebração e convívio, nesta data de 22 de Setembro 20007, onde estão presentes amigos de infância que frequentaram a escola primária nos anos 40-50 e alguns 60, tem por objectivo estreitar ainda mais os laços de amizade que nos une, e nunca esquecendo os já falecidos, aos quais lhes rendemos profundas homenagens.”

 

   Para finalizar, que mais haveria a mencionar?

   Julgo que pouco ou nada. Que o serão decorreu animado. Que a missão foi cumprida. Que o objectivo foi atingido. O contentamento generalizado no rosto das pessoas, quando, depois do jantar e já noite alongada, se despediam, antes de regressarem a suas casas, não permitia dúvidas.

AMIGOS, ATÉ PARA O ANO, SE DEUS QUISER.
OBRIGADO A TODOS, por terem vindo.

 
P.S. – Faço aqui um apelo a todos os interessados, para ficarem atentos à página “Livro de Visitas”, do site de ASSENTIS, na Internet, que o amigo “JAC” (filho do também nosso amigo Zé Costa) coordena e mantém bem vivo. Oportunamente, ali se informará sobre a preparação do nosso próximo jantar que, talvez se realize a 20 de Setembro de 2008.
 

Abílio Conde Vieira
2007-10-22
 
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